quinta-feira , 1 outubro 2020
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Aos 88 anos, Takashi cultiva tomates até hoje

Dia do Imigrante: Com 88 anos, Takashi Nagai lembra as dificuldades enfrentadas no pós-guerra

Viajando no navio Santos Maru, ele levou 63 dias para chegar ao Brasil; morou em Bauru e vive em São José

No dia 25 de junho foi comemorado o ‘Dia do Imigrante’. A data foi escolhida para coincidir com o encerramento das celebrações da semana da Imigração Japonesa, que tradicionalmente se inicia dia 18 de junho. 

De acordo com o Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), lançado pelo Ministério da Justiça em 2019, o país registrou, de 2010 a 2018, um total de 774,2 mil imigrantes e refugiados. Haitianos e venezuelanos são as principais nacionalidades registradas no Brasil.

Takashi Nagai, 88 anos, aposentado, nascido no dia 1ª de janeiro de 1932, em Matsuyama, na província Ehime-ken, no Japão, que atualmente reside em São José do Rio Pardo com sua família, falou ao jornal. Ele foi acompanhado por um de seus filhos, Massakazu Nagai, para a tradução, por não ser fluente em português.

Chegada ao Brasil

“Quando ele era jovem, a crise no Japão estava muito grande, era o período pós Segunda Guerra Mundial, e o governo incentivava os japoneses a virem para o Brasil. O governo japonês dizia que o Brasil era um país cheio de fartura, que tinha terras a vontade, e que era uma boa oportunidade para trabalharem na agricultura. Mas não foi bem assim. Quando meu pai chegou ao Brasil, em 1959, com minha mãe, Setsuko Nagai, teve que trabalhar de boia-fria, não foi muito fácil. Principalmente para os primeiros imigrantes que vieram e sofreram muito mais. A sorte do meu pai é que ele não foi o primeiro japonês. Ele veio no navio Santos Maru, e levou 63 dias para chegar ao Brasil”, contou o filho.

“Depois, quando ele foi conquistando amizades, conseguiu trabalhar e morar onde trabalhava. De tudo o que faturava, metade do lucro ia para o dono do terreno e a outra metade para quem plantou”, explicou.

“A primeira cidade em que ele morou foi Bauru, que até hoje é uma região com muitos japoneses. Eles se mudavam sempre acompanhando a colônia japonesa, por isso ele não aprendeu muito o português”, disse o filho. 

 “Em 1964 meu pai foi para a região de Indaiatuba, mas quando ele veio para São José do Rio Pardo, em 1970, foi quando começou a ter um pouco mais de sorte na agricultura”.

O Japão pós-guerra ficou completamente falido. Takashi trabalhava como vendedor, fazia vendas de máquinas de costura quando era jovem, e serviços relacionados à energia elétrica.

Diferenças entre Brasil e Japão

“Ele considera a burocracia uma das maiores diferenças. Aqui no Brasil tem filas, tudo o que você quer fazer precisa de agendamento, demora dias para ficarem prontos alguns documentos, por exemplo. No Japão é tudo feito na hora. O atendimento é muito rápido, em bancos, hospitais, tudo. Além disso, no Japão existe um respeito muito grande com os mais velhos e aqui no Brasil é o contrário. Lá o respeito é muito grande, com todas as pessoas em geral”, disse Massakazu.

“O que ele mais gosta no Japão é da tecnologia, segurança. Ele fala que lá não tem ladrão, que é muito tranquilo. A palavra lá é muito respeitada, eles tem comprometimento com a fala”, explicou o filho.

Segundo Takashi, quando o Japão estava em crise, o Brasil oferecia condições melhores para se viver, mas agora é o contrário. “O Japão se tornou a 2ª maior potência mundial pela tecnologia, os valores se inverteram. Lá no Japão ganha-se mais, é tudo melhor em relação ao Brasil”, disse Takashi.

“No Japão falta mão de obra, a maioria das pessoas tem curso superior e não querem pegar no batente. Por isso muitos chineses e brasileiros vão para lá, porque precisam de mão de obra. O Japão dá muitas oportunidades para pessoas de outros países”, traduziu Massakazu.

“Ele gosta muito do clima do Brasil, planta-se de tudo, enquanto no Japão tem muita neve, o inverno é muito intenso”, disse o filho.


Foto da casa em que Takashi morou no Japão 

Costumes que permaneceram

“Meu pai é praticante do budismo, ele propagou o Budismo Nitiren, em São José e região, e é membro da BSGI(Brasil Soka Gakai Internacional). Mas na realidade, ele conheceu o budismo no ano de 1968, aqui mesmo, no Brasil. Ele gosta da comida japonesa, ainda come usando o hashi, gosta de preparar o sukiyaki, que é uma comida típica, na época do inverno”, contou Massakazu.

São José do Rio Pardo

“Ele escolheu vir para São José pela temperatura da cidade, o clima, e principalmente por conta do espaço para poder trabalhar na agricultura. Ele ficou sabendo que a região de São José era muito boa para o plantio de cebola, tomate, pepino. Depois disso os filhos começaram a crescer e estudar e ele ficou por aqui. Teve 6 filhos. Na década de 80 ele parou com a plantação de lavoura e começou a mexer com comércio, tanto é que abrimos o restaurante Nagai. Em 1999 minha mãe faleceu.”, prosseguiu.

União

Segundo Takashi, tudo o que o Japão conseguiu conquistar foi graças a união, metas e objetivos, toda a nação trabalhou junto para conseguir reerguer o país. Para ele, o mais importante é todos estarem unidos com um único objetivo.

Exemplo para a família

“Meu pai é um vencedor, hoje com 88 anos ele continua trabalhando, não para, acorda bem cedo, tem uma saúde de ferro, anda sozinho, dirige, tem carteira de motorista, faz tudo sozinho. Não toma nenhum remédio, não tem problema de saúde, tem uma boa alimentação. A família toda admira muito ele. Ele trabalha não por questão financeira, mas porque ele adora o que faz. Ele sempre foi um exemplo de pai e trabalhador. Sempre foi firme e rigoroso, mas foi um exemplo de trabalho. Trabalhava com chuva ou sol. Ele cultiva tomates e cuida da colheita diariamente ”, encerrou o filho.

Takashi e seus tomates

Por Júlia Sartori

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