terça-feira , 19 novembro 2019
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Psicóloga defende que pais brinquem mais com os filhos

Isso os ajudará a pensar em ser feliz, mesmo que, não necessariamente, sejam bem-sucedidos

Em comemoração ao Dia das Crianças, Gazeta do Rio Pardo preparou uma matéria especial sobre infância, brincadeiras, comportamento e tecnologia nas mãos dos pequenos. A psicóloga especializada em atendimento infantil, Kelly Mariana Ribeiro, respondeu algumas perguntas.

Psicóloga Kelly Ribeiro, especialista em atendimento infantil

Houve mudança no comportamento das crianças de hoje, em comparação com as de antigamente?

Kelly: Se houve mudanças no comportamento das crianças, percebo que em termos de desenvolvimento emocional continua a mesma coisa. O que mudou foram os estímulos sensoriais. Antes da era digital, as atividades lúdicas estimulavam todos os sentidos como tato, olfato, a visão e a audição, além das psicomotoras como correr, pular, montar, nadar, na construção de jogos e brincadeiras que também estimulavam a imaginação, afetividade, criatividade, autonomia. Hoje em dia as brincadeiras preferidas pelas crianças exigem concentração e raciocínio lógico, ficam hiper estimuladas  na visão e audição, com os jogos e imagens muito coloridos e barulhentos No entanto, os outros sentidos ficam empobrecidos, bem como a capacidade de criar e inventar seus próprios jogos e brincadeiras. Por isso, precisamos entender que o tempo do brincar é tão importante quando o tempo do estudar, pois o brincar promove o desenvolvimento integral da criança. O ato de brincar é uma oportunidade educativa que vai além dos conteúdos do currículo escolar tradicional.

Quais brincadeiras elas mais prezam?

Kelly: Hoje em dia o mercado de aparelhos digitais exerce o fascínio sobre a maioria das crianças.  Os pais e educadores reclamam por não ter hora para brincar, visto que o ato de brincar acaba ficando em segundo, terceiro ou quarto plano e isso não é bom para o desenvolvimento social da criança e consequentemente, na vida adulta. A criança precisa brincar na infância, construir e reconstruir mundos, aprender regras, limites, utilizar a imaginação, trabalhar a criatividade e humanização. Esses quesitos precisam ser trabalhados na infância para que não leve a vida adulta na brincadeira.

Você acha que algumas delas estão deixando de ser crianças cedo demais?

Kelly: Para se adequar às novas exigências do mundo moderno, muitos pais entendem que inserir crianças em atividades extracurriculares poderá auxiliar a criança a desenvolver habilidades específicas para garantir um futuro promissor. Isso de certa forma auxiliará a criança a desenvolver habilidades que poderão ser um diferencial em longo prazo, mas o conteúdo, para ser melhor armazenado, precisará que a criança disponha de momentos de lazer, pois é no “faz de conta” que a criança poderá absorver melhor o conteúdo aprendido. Esses estímulos forçam um amadurecer rápido da criança, já que não irão extravasar suas emoções brincando.

Atualmente, devido ao medo da violência, projetos de vida, incertezas sobre o futuro, os pais fazem com que os momentos de lazer dos filhos sejam dentro de casa. Da mesma forma que ocorre um “amadurecimento intelectual” devido ao excesso de tarefas na rotina diária do filho, fora de casa. Observo que o uso dos recursos tecnológicos ilimitados facilita o comportamento individualista. Nesse sentido observo um aumento do número de crianças e adolescentes com dificuldade de autonomia. Os valores emocionais que precisam ser desenvolvidos na infância, respeitando a faixa etária sobre: regras, auto regulação, responsabilidade, limites, autonomia, empatia e solidariedade estão perdendo espaço para o individualismo e a solidão.

O quanto o comportamento dos pais afeta uma criança?

Kelly: Os filhos são espelhos dos pais, em comportamentos e atitudes as crianças estarão desenvolvendo as mesmas habilidades. É importante que os pais dialoguem com os filhos e criem situações de brincadeiras com qualidade. Um ambiente restrito onde não se promove o diálogo, aonde a integração dá lugar à navegação das mídias sociais, o desenvolvimento pode ser precário. É importante que os pais ou responsáveis promovam o debate e opiniões, ajudem o filho a saber argumentar, através de regras, limites e deveres, afetividade e solidariedade essenciais para formação do pensamento crítico da criança. Faz-se importante o monitoramento dos pais sobre as mídias sociais aos quais os filhos navegam na internet, regras e quantidade de tempo estipulado pelos pais.

Existe um motivo em comum para a maioria dos pais de seus pacientes te procurarem?

Kelly: A maioria dos casos está relacionada à dificuldade de concentração e ansiedade, além do déficit de aprendizagem. A queixa das escolas em geral está ligada a falta de atenção, desinteresse e apatia. Observo nos atendimentos que algumas crianças apresentam dificuldade em brincar, como também desinteresse. Nos atendimentos pedem para assistir vídeos ou trazer o Tablet para jogar durante a sessão. No livro de Wininncott “O Brincar e a Realidade” (1975), pag. 58, ele diz que “a psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em consequência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que é.” Neste sentido a tarefa do terapeuta seria a de resgatar a capacidade de um brincar criativo.

Na sua visão, qual o maior erro que os pais podem cometer com relação aos filhos?

Kelly: Dentre os questionamentos observados pelos pais, a falta de observação nas atividades de lazer das crianças pode se tornar um risco, visto que o comportamento e as curiosidades das crianças sempre existiram. Conversar, fazer combinados e ajudar a criança ter autonomia e responsabilidade pelas escolhas pode ser um diferencial.

Nos dias de hoje, tem sido mais difícil educar as crianças? Por quê?

Kelly:  A educação dos filhos é um grande desafio em qualquer época. Cuidar do bem estar físico e emocional, depende também do bem estar físico e emocional dos pais. Atualmente o excesso de informações atinge também os progenitores, que se tornam inseguros da própria capacidade de educar os filhos. O bom senso, evitar exageros, é sempre uma boa opção.

 A tecnologia ajuda ou atrapalha a formação dos pequenos?

Kelly:  A tecnologia pode ser um aliado desde que as atividades psicomotoras através de atividades ao ar livre  não sejam prejudicados pelo uso excessivo de jogos eletrônicos. Os jogos eletrônicos de certa forma arrombaram a porta do mundo e vieram para mudar atitudes, posturas, hábitos, costumes e o modo de viver a infância. Crianças hoje brincam sentadas em frente a jogos eletrônicos. Por um lado, os games podem promover o desenvolvimento das funções cognitivas e habilidades visuais e motoras. O cérebro aprende a pensar rápido, por outro lado estará predisposta a obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada.

 Qual o maior medo dos pais (nos casos em que você vivencia) com relação a seus filhos?

Kelly: O maior medo é os filhos não desenvolverem as capacidades intelectuais essenciais para uma boa formação acadêmica e acabam se esquecendo de que o “faz de conta” e as brincadeiras de criar e recriar serão a base para que as crianças possam absorver o conteúdo aprendido na escola. É através do brincar que as crianças podem construir e reconstruir seus mundos pensando em ser feliz e não necessariamente serem bem sucedidos. A formação acadêmica  auxiliará a criança a desenvolver as habilidades intelectuais, que serão estimuladas ou não na infância, mas a interação, cooperação e afeto serão desenvolvidos no momento do brincar.

Como devemos ajudar e incentivar as crianças a deixar o mundo da tecnologia de lado, e curtir brincadeiras mais saudáveis?

Kelly: Sendo exemplos, através de condutas, e também conversar com as crianças sobre as brincadeiras de antigamente. Uma troca de experiências onde ambos aprendem uns com os outros e todos se beneficiam. Criar expectativas e superar os próprios desafios, seja nas brincadeiras psicomotoras de correr, andar de bicicleta, nadar, como  também navegar pela internet e jogos de games de forma saudável que serão grandes aliados para trabalhar os estímulos responsáveis para um bom desenvolvimento da criança.

Até que idade uma pessoa é considerada criança hoje em dia?

Kelly: Segundo a Organização Mundial da Saúde, são consideradas crianças pessoas até os 10 anos de idade; dos 11 aos 19 anos, adolescentes; e dos 20 aos 24, adultos jovens. O que observamos é a extensão da adolescência em função das dificuldades do mercado de trabalho, como também da infantilização emocional. A legislação brasileira reconhece explicitamente o direito de brincar, tanto na Constituição Federal (1988), artigo 227, quanto no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990), artigos 4º e 16, mas ainda não oferece as condições para que esse direito seja exercido plenamente por todas as crianças.

Qual a importância de vivenciar a infância na vida de um indivíduo?

Kelly: Sou suspeita em falar de brincadeiras, sempre gostei do brincar, percebo que isso faz com que tenhamos coragem de enfrentar o mundo, cada um da sua forma e com seus recursos, sejam materiais ou emocionais. O brincar faz com que possamos ser o que nós quisermos sem julgamentos e nos ajuda a acreditar na esperança de dias melhores.

Existem brincadeiras fundamentais para o desenvolvimento da criança?

Kelly:  O brincar não exige brinquedos específicos,, o que precisa é imaginar e criar. Qualquer pedacinho de papel ou madeira poderá virar um grande brinquedo, o que importa não são os valores materiais, mas sim os valores emocionais que depositamos em cada vivência, lugar, pessoa ou brincadeira.

Por Júlia Sartori

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