domingo , 26 junho 2022
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Antes da festa Junina, Ari e seus familiares rezam o terço

Professor Ari fala sobre tradição da festa junina

Há décadas ele e sua família realizam o tradicional festejo no município

A época de festa junina chegou e muitas pessoas consideram como a melhor festividade do ano, especialmente pela caracterização, brincadeiras e toda a celebração envolvida, além das deliciosas guloseimas, é claro. Mas o significado e a essência dessa tradição é muito maior do que a própria festa. Faz parte da propriedade cultural e histórica de nosso país, que deve ser lembrada e principalmente valorizada. O que só é possível quando conhecemos sua verdadeira origem e propósito.

O começo da festa junina no Brasil remonta ao século XVI. As festas juninas eram tradições bastante populares na Península Ibérica (Portugal e Espanha) e, por isso, foram trazidas para cá pelos portugueses durante a colonização, assim como muitas outras tradições. Quando introduzida no Brasil, a festa era conhecida como festa joanina, em referência a São João, mas, ao longo dos anos, teve o nome alterado para festa junina, em referência ao mês no qual ocorre- junho.

Inicialmente, a festa possuía um forte tom religioso – conotação essa que se perdeu em parte, uma vez que é vista por muitos, mais uma festividade popular do que religiosa. Além disso, a evolução da festa junina no Brasil fez com que ela se associasse a símbolos típicos das zonas rurais.

O crescimento da festividade aconteceu sobretudo no Nordeste, região que atualmente possui as maiores festas. A maior festa junina do país acontece na cidade de Campina Grande, localizada no estado da Paraíba.

Festa familiar

Em São José do Rio Pardo, o professor de Artes Arioswaldo Rizzo de Andrade, que lecionou História da Arte e Folclore Brasileiro na FEUC, preserva uma antiga tradição de família, e segue à risca todos os anos os costumes da festa junina. Ele e sua irmã reúnem familiares e amigos na Chácara Rochela, no Bairro Paula Lima e além de rezarem o terço, promovem festa junina. O professor falou sobre a tradição de sua família, e comentou a importância cultural e história da celebração para o nosso país.


Desde criança, Arioswaldo zela a tradição junina ( Foto de 1971, na Escola Tarquínio Cobra Olyntho)

“A festa Junina é uma tradição da minha família. Meus pais já faleceram há 20 anos, mas mesmo assim mantemos a tradição. Nós rezamos o terço e levantamos a bandeira dos santos. A história começou com eles, quando eles se foram, eu e minha irmã continuamos. Somos de uma família católica. No mês de junho, como minha família têm descendência portuguesa e italiana, e foram eles que trouxeram esses festejos ao Brasil, nós continuamos fazendo esse tipo de festa. Reunimos amigos e pessoas da região para rezar o terço. Levantamos a bandeira que são as figuras, que têm a imagem de Santo Antônio, São João e de São Pedro. Fazemos bandeiras de seda como era feito antigamente, porque pela tradição, as bandeirinhas de papel vinham estampadas com as figuras dos santos padroeiros. Com o tempo, aquilo foi ficando muito caro, e o papel de seda era mis barato e é o que tínhamos de colorido. Isso no início do século XIX. Quando as bandeiras de seda são colocadas, quando bate o vento, fazem um som muito típico dessas festas”, observou.

Arioswaldo contou que no momento da reza do terço, cada familiar faz uma parte. Após rezarem, saem com a bandeira do santos em procissão. “Todos que estão juntos no festejo passam por baixo da bandeira porque isso traz sorte. E segundo a cultura popular, se você não passar, não têm garantia de estar ali no próximo ano”, comentou.

“Depois levantamos o mastro, e as moças que pretendem se casar ajudam a segurar para deixar o mastro bem firme no chão, e soltamos os fogos. Fazemos a fogueira, existem três tipos diferentes, mas fazemos a de cruzeta que é de São João. O ato de acender a fogueira, vem da tradição cristã, de que quando Santa Isabel deu à luz a seu filho João Batista, eles moravam no alto de uma montanha, e seu marido acendeu a fogueira para que toda comunidade soubesse que o filho homem tinha nascido”, relatou.

Arioswaldo e sua família fazem o possível para manter as tradições, inclusive das comidas típicas, que tradicionalmente, não envolvem todas as guloseimas que vemos nas festas hoje em dia. “Acho estranho as pessoas servirem cachorro quente nas festas juninas. O cachorro quente chegou no Brasil no final da década de 70. Não era comum nas festas juninas servirem cachorro quente. O máximo era pão com linguiça, porque a carne do porco era a mais presente na roça. As pessoas comiam o que elas tinham. Pipoca, pamonha, curau, bolo, é o festejo do milho, porque é isso o que tinha na roça. Na nossa festa, assamos a batata doce na brasa, que é uma delícia, também é uma comida típica da festa. A bebida na época, era o quentão, não o vinho quente como é servido hoje. O que as pessoas tinham mais fácil na época, era água ardente. Ela era fervida em açúcar, colocavam a canela, o cravo, limão, as rodelas de laranja e o gengibre. Além de deixar a bebida mais saborosa, aquece”, observou.

Para as crianças, o professor contou que antigamente, era servido apenas o leite com açúcar queimado. Depois de muito tempo veio o achocolatado”, pontuou.

“Da nossa festa participam os amigos dos meus pais que ainda existem, nossos familiares, e amigos. Mas nunca chegamos a ter mais de 200 pessoas em uma reunião como essa. Nos dois últimos anos o número de pessoas foi bem reduzido, foi algo mais familiar por conta da pandemia.  O mais importante para nós é que as pessoas participem do terço. Esse ano provavelmente nossa festa será dia 18. Não têm convite, é falado de boca”, explicou.

Manter a tradição é essencial

Segundo Arioswaldo, a globalização trouxe muitas coisas que não faziam parte dos tradicionais festejos juninos, como colocar vassouras decoradas e espantalhos, que antigamente eram usados apenas para espantar pássaros da horta, mas nunca em uma festa junina.

No casamento caipira, que acontece nas festas de sua família, Arioswaldo têm sempre um sanfoneiro presente. “Damos preferência por ter sempre um sanfoneiro, o zabumba e o triângulo não são muito comuns na região, mas o certo seria esses três instrumentos. Temos um sanfoneiro porque o som é totalmente lúdico, e quando está tocando a sanfona, as músicas podem ser cantadas”, informou.


Arioswaldo com sua esposa Juçara

“Fico muito triste quando vejo que as escolas que deveriam manter a tradição da festa junina, não mantém. Vejo muitas escolas transformando festa caipira em country. A festa country não tem nada a ver com as nossas comemorações. E as escolas têm essa função de manter as tradições de festas juninas. Quando sou chamado para ensaiar nas escolas, ensaio quadrilha”, comentou.

Quadrilha

De acordo com o professor de artes, a quadrilha teve origem na corte francesa, e como muitos de nossos ancestrais vieram da Europa, trouxeram a dança para o país. “Quando chegaram ao Brasil, queriam imitar e fazer algo que era chique naquela época. Por isso que os passos da quadrilha são afrancesados. A quadrilha existe na festa junina não para ensaiar e dançar, porque na quadrilha verdadeira, a pessoa que está cantando, fala o passo e explica o que as pessoas precisam fazer na própria música. As pessoas foram adaptando a quadrilha e acrescentando o dia a dia na roça. Essas brincadeiras relatam o cotidiano dos nossos ancestrais que começaram com esses festejos”, acrescentou.

Vestes

Ari comentou sobre as vestes usadas na época em que as festas juninas se iniciaram. “As moças na época usavam vestido de chita, que era o que tinha e colocavam fitas na roupa. O chapéu era usado porque fazia parte do cotidiano, quando as pessoas iam trabalhar na roça usavam para não queimar o rosto. No caso dos homens, a roupa era remendada não porque era bonito, mas porque não tinham dinheiro. Quando começamos a refazer essa tradição, lembrávamos da dificuldade que nossos familiares enfrentavam quando trabalhavam na lavoura. A globalização mudou muitas coisas nas festas juninas, até podemos aceitar as mudanças, mas nunca podemos perder nossas origens”, destacou.

Patrimônio cultural e histórico

“A tradição deve ser mantida porque faz parte do patrimônio cultural e imaterial do nosso país. Festa Junina é conteúdo de aula, e não apenas de Artes, é conteúdo da aula de português, porque têm a maneira como o caipira fala, também deve fazer parte da aula de educação física e até mesmo de geografia, porque cada parte do país tem uma quadrilha, uma dança diferente. Temos que mostrar para a sociedade que possuímos uma tradição que precisa ser valorizada porque conta uma história do brasileiro, que é verdadeira”, disse.

Para o professor, a tradição se inicia desde a confecção das bandeirinhas de seda, e até mesmo na construção dos nos cartuchos, que muitos jovens não conhecem.  “São cones de cartolina, enfeitados com papel de seda e com doces cristalizados dentro. Durante a festa isso pode ser distribuído ou até rifado. Muitas pessoas não conhecem mais o cartucho”, observou.

“A intenção não é decorar, é fazer com que os alunos aprendam a confeccionar os elementos que fazem parte da nossa cultura. Aprender a fazer, entender o objetivo, é muito válido”.

Músicas  

Para Ari, as músicas de Luiz Gonzaga se encaixam perfeitamente nas festas juninas. “Todas as músicas dele podem ser usadas durante uma comemoração como esta. As músicas juninas foram gravadas por grandes compositores. Aurora Miranda, irmã de Carmen Miranda gravou várias dessas músicas, como A filha de João, e muitas pessoas não sabem disso. A própria Carmen Miranda cantava músicas juninas. Essas músicas precisam ser cantadas e dançadas. Acho que tudo isso deve ser resgatado na escola e também na cidade”, comentou.

Resgatando a tradição

“Antigamente, na década de 60 e no começo da década de 70, os clubes tinham festa junina e as pessoas iam a caráter aqui na cidade. As próprias ruas faziam festa junina. Além de tudo é uma confraternização, uma maneira de ter os amigos e a família unidos.  Acho que a globalização e a falta de interesse em preservar essas tradições é muito grande. As pessoas tem vergonha do que é nosso. Uma prova disso é a finalização da Folia de Reis, que não temos mais em São José. A cultura precisa ser preservada, é a partir daí que nós vamos conhecer a nossa história”, encerrou.

*Com informações do site Brasil Escola

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