sexta-feira , 14 agosto 2020
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O dependente químico (adicto) começa o vício por curiosidade, diz Buiu, mas depois se afunda nele e não consegue mais sair

Só 30% dos dependentes químicos conseguem se recuperar, diz Buiu

Ex-dependente de drogas, hoje ajuda outros a se internarem

Rodrigo Pereira Ribeiro, 40 anos, operador de máquinas e esportista, conhecido na cidade como Buiu, participou do ‘Jornal do Meio Dia’, da rádio Difusora, no dia 21 de julho, terça-feira, para falar sobre um projeto pessoal, do qual ajuda adictos a buscarem tratamento em clínicas para dependentes químicos, além de fazer um trabalho de conscientização e prevenção contra as drogas. Buiu já foi dependente químico e contou sobre seu período de tratamento e dificuldades. Ele trabalha na empresa ‘Mateus Alimentos’ há 13 anos, e recebe pedidos de ajuda de adictos e famílias.

Envolvimento com drogas

“Tudo começou quando passei por esse problema. Fui dependente químico, comecei a ingerir bebida alcoólica e depois outras substancias. Precisei passar por uma internação, a minha foi voluntária, de livre e espontânea vontade, devido ao estado em que eu me encontrava. Acabei usando várias drogas, álcool, maconha, cocaína, LSD, bala, doce, e depois caí no crack, que foi o fundo do poço. Minha família sofreu demais com a minha dependência química. Tive que passar por um processo. Tive um anjo na minha vida que me instruiu e me levou para a clínica”, contou.

“O que me levou a este mundo, é o que leva a maioria das pessoas, a curiosidade. Mas outras situações também levam a pessoa a experimentar a droga e achar que não vai acontecer nada, que será mil maravilhas. No começo é sim, muito legal, mas depois você perde o controle da vida e começa a experimentar mais drogas. Muitos experimentam para serem aceitos em certos grupos de pessoas, então na maioria das vezes, as pessoas começam por curiosidade. A falta de habilidade de lidar com os sentimentos e emoções também contribui para que a pessoa use a droga”, explicou Rodrigo.

Tratamento

“É uma luta constante. A gente acha que vai morrer com esse problema, porque falam que nossa doença não tem cura, é progressiva, incurável e fatal. O período de tratamento foi muito difícil, tive que deixar meu trabalho, na época fazia dois anos que eu trabalhava na Mateus Alimentos, que me abriu as portas para o trabalho. Precisei sair da minha cidade, ir para uma clínica em Pirassununga, na Renascer, tive que deixar minha esposa com duas filhas, com um monte de contas para pagar, e precisei passar por esse tratamento. Fiquei longe da família por seis meses, só podia receber visita uma vez por mês, não tinha telefonema, não podia falar com minha família, foi um período difícil. Minha esposa ficou com as responsabilidades da casa, sem o marido, as crianças sem o pai. Eu achei que não fosse dar conta de ficar os seis meses internado na instituição. Foi um período difícil, mas de muita aprendizagem e graças a Deus estou hoje ajudando muitas pessoas que se encontram na mesma situação”, relatou.

“O primeiros 15 dias sem a droga, particularmente são os piores. Porque a gente vem de um uso muito continuo de drogas, por muito tempo. Eu particularmente usei dez anos da minha vida, e crack, uns sete. Quando você interrompe isso, tira isso de uma hora pra outra do organismo, as consequências são grandes. Eram várias vontades, de ir embora de lá, de usar, eu sonhava que estava fazendo uso da droga, fazendo todo o ritual, e depois acordava com a vontade. Eu tive que conviver com várias pessoas de fora da cidade nesse período, eram 35 pessoas internadas lá e não foi nada fácil. Foi um período de muita superação, eu me redescobri, fui saber quem realmente era o Rodrigo”, afirmou.

Projeto Pessoal

“Depois que terminei meu tratamento, comecei a ver que as pessoas tinham muita dificuldade em arrumar internação, conseguir uma clínica séria. Me senti na obrigação, depois de tudo o que eu passei, em começar a ajudar essas pessoas”, contou.

“A maior dificuldade para encaminhar as pessoas para as clínicas de tratamento, é a financeira. Na nossa cidade, infelizmente, não temos uma clínica que podemos levar essas pessoas, não temos uma casa de passagem para os moradores de rua, não temos casa de reinserção social. A maioria das pessoas que me procuram são de baixa renda. Se a pessoa precisar internar um filho dela hoje, pela saúde pública, infelizmente vai ser difícil. O maior problema, é que a pessoa precisa da internação para hoje. A dependência química é mais ou menos igual a fome. Se eu for na casa de alguns de vocês pedir comida hoje, é porque estou com fome hoje. Não adianta pedir para eu ir semana que vem comer. Tem que ser imediato”, disse.

“A internação difere de clínica para clínica, mas o tratamento de uma clínica séria hoje em dia, é no mínimo R$1.500 por mês, um tratamento de seis meses. Muitas pessoas não tem condições de pagar. Tem uma clínica que se chama ‘Vida Nova’, em Pirassununga, e levo algumas pessoas para lá. Não é a mesma que fiquei, é uma clínica involuntária, fechada. Se a pessoa for lá, ela não vai conseguir sair”, contou.

“Eu tenho a facilidade de fazer com que a família pague R$600,00 ao invés de R$1.500,00 por exemplo. Mas às vezes a pessoa não tem condições mesmo assim. Infelizmente eu não tenho o poder aquisitivo que gostaria de ter para pagar o tratamento da pessoa”, lamenta.

Acomete qualquer pessoa

“A droga não escolhe classe social, nem cor ou sexo, nem mesmo faixa etária. Quando você vai em um clínica, vê que tem pessoas de 18 a 65 anos, por exemplo. A droga está abraçando todo mundo”, explicou.

Poder público

“Quando você procura a saúde pública, não consegue uma clínica de imediato. Na maioria das vezes o poder público leva para outras clínicas, faz um tratamento de 60 dias, a base de medicação, a pessoa fica lá restrita ao uso de álcool e drogas, mas quando ela volta para a família, ela volta com o mesmo problema, porque ela não teve um tratamento digno de seis meses, com espiritualidade, com 12 passos de narcóticos anônimos, não tem um tratamento que possamos direciona-la a ter a chance que eu tive, de aprender sobre a doença e ter uma vida produtiva”, completa.

30% se recuperam

“De cada dez pessoas, três se recuperam e somente uma morre em recuperação. Então é basicamente 30% que se recupera. As outras voltam a usar após alguns anos. É uma dificuldade que a pessoa tem de ficar limpa, de seguir tudo o que aprendeu na clínica. Ela não dá selo de garantia. Tenho um colega que passou por 40 internações, e um outro amigo teve 15. Isso difere de indivíduo para indivíduo. A dificuldade de ficar limpo na rua é muito grande, se a pessoa não tiver força de vontade, não seguir o que aprendeu na clínica, é complicado ficar limpo”, relata.

“Eu faço um trabalho na Crescendo, que é uma clínica em São José do Rio Pardo, vai fazer dois anos que fazemos esse trabalho. Percebemos que a maior dificuldade é o fato da pessoa não conseguir manter o tratamento. A regressão de pessoas voltando a usar droga é grande”, afirma.

Amizades


Rodrigo Pereira Ribeiro, no Jornal do Meio Dia, falou sobre seu projeto pessoal de ajudar dependentes químicos

“Eu não culpo nenhum dos meus amigos, porque ninguém me colocou a droga na boca, eu experimentei sozinho. Mas aprendi na clínica que temos que evitar coisas, lugares e pessoas. Hoje eu consigo lidar com certas situações, conviver com pessoas que fazem o uso de drogas até hoje, consigo ir em um churrasco e ver as pessoas beberem. Mas a maioria das pessoas acabam sendo influenciadas”.

Conscientização

“Tentamos conscientizar as pessoas. Eu comecei a usar droga com 20 anos, hoje em dia os adolescentes com 12, 13 anos já usam. Faço um trabalho de conscientização com adultos, e prevenção com as crianças”, informou.  

Apoio da família

“A base da recuperação é a espiritualidade e a família. Eu tive uma base espiritual desde pequeno, depois dos 15 anos sai da igreja e passei 15 anos no mundo passando pelo problema. A base familiar é fundamental. A pessoa que passa por problema com drogas sem a família, é muito complicado. No meu caso, se não fosse pela família, seria quase impossível a recuperação. O apoio de mãe, pai, esposa e filhos, dá uma força muito grande”, contou.

Espiritualidade

“A religião ajuda muito. O programa para recuperação é um conjunto de coisas ligadas a espiritualidade. Se não acreditarmos em uma força maior do que nós, dificilmente vamos ficar limpos. Independente de placa de igreja, a espiritualidade é fundamental, temos que acreditar em Deus. Eu sou um milagre disso, não tenho explicação para falar como eu consegui sair disso, foi Deus na minha vida”, disse Rodrigo.

Aceitação

“A pessoa precisa aceitar que tem problema com dependência química. Se não tiver uma aceitação que você perdeu o controle da sua vida, dificilmente você vai entrar em recuperação”, encerrou.

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