sexta-feira , 23 outubro 2020
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Carlos Henrique Caveanha (Kaíque )

Kaíque, atleta paralímpico, fala sobre as conquistas, dificuldades e a carreira

“Meu sonho como atleta é representar o Brasil; não sei se meu corpo vai aguentar tudo isso, mas a ideia é essa”, diz ele

No dia 21 de setembro foi comemorado o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. O dia foi criado oficialmente a partir do Decreto de Lei Nº 11.133, de 14 de julho de 2005, e tem como objetivo conscientizar a população sobre a importância do desenvolvimento de meios de inclusão na sociedade das pessoas com deficiência. Segundo o IBGE, existem no país 12 milhões de pessoas com deficiência, número que representa 7% da população brasileira. O atleta paralímpico rio-pardense Carlos Henrique Caveanha (Kaíque), falou sobre sua vida, desafios, e carreira no esporte. Ele faz parte da equipe Arepid (Associação Riopardense Esportiva e Paradesportiva do Idoso e do Deficiente).

“Estou no esporte desde 2009. Fui convidado pelo professor Sérgio Henrique Braz para participar do atletismo de pessoas com deficiência. Eu tive paralisia cerebral na infância. Então eu participo e vou competir com pessoas que tem a mesma deficiência que eu, mas muitas em graus diferentes.  Existem vários graus da paralisia cerebral”, contou.

Contato com o esporte

 “O professor Sérgio me abordou na rua na primeira vez que nos vimos, nem nos conhecíamos. Ele me convidou para fazer parte do atletismo, na época era um projeto novo na cidade, e perguntou se eu não queria participar de competições. Eu sempre gostei da musculação, mas nunca havia competido, nem conhecia como era o esporte para pessoas com deficiência. Mas aceitei o convite dele e não parei mais”, relatou.

Vida de atleta

“Existem situações externas, desde você ter que levantar para treinar em um dia ruim, a dificuldade para chegar em um ambiente de competição, a incerteza. Dormir é muito difícil quando vamos participar de alguma prova. Em São Paulo, por exemplo, quando saímos do nosso quarto para dormir em hotel, a cama é diferente, os travesseiros são diferentes, o ambiente, tudo é diferente. Você fica tenso”, disse.

“As lesões são frequentes porque é um treinamento que vai te exigir o máximo. Mas ao mesmo tempo é muito prazeroso, é um vício”, afirmou.

“Os treinos da Arepid são puxados, porque nunca sabemos o que vamos enfrentar nas competições, então temos que chegar com nosso melhor desempenho, e para isso precisamos treinar muito bem. Estou com muita saudade e vontade de competir, mas por causa da pandemia, por enquanto, não há previsão de nada. Alguns treinos aqui em São José voltaram”, informou.

Recordes

“Desde 2017 mantenho o recorde brasileiro da minha classe, que é a F34, foi o ano em que consegui o recorde em lançamento de disco, de dardo e em 2019 consegui de arremesso de peso. Tenho muito mais técnica no lançamento do disco, mas estou focando em 2020 no arremesso do peso. Não sei se o episódio de 2017 irá se repetir. Eu participei da regional de São Paulo, das três provas de arremesso de peso, lançamento de dardo, e de disco, foi um dia incrível que venci as três e bati o recorde nas três. Os recordes da classe F34 ainda são meus. Eu só pensava em me classificar, não pensei que fosse ganhar”, contou.

“Em 2019 bati o recorde brasileiro no peso. Antes de me chamarem para fazer a prova, eu estava contando piada, fazendo as pessoas rirem, sem pressão de atingir a marca, porque é algo que está fora do seu controle”, completou.

Divisão

“A paralisia cerebral foi dividida pelo IPC (Comitê Paralímpico Internacional), entre F31 e F38.  O F31, são os mais acometidos, no F32 vai diminuindo o grau das lesões, até o F38. Até o F34, são pessoas que competem sentadas. Do 35 em diante, já competem em pé. São pessoas que tiveram a paralisia cerebral mas conseguem correr. Mas os que competem comigo, sempre fazem sentados”, explicou o atleta.

Acessibilidade

“A questão da acessibilidade para os deficientes, não é exclusiva só para pessoas com deficiência. Um dia todos vão envelhecer, e irão precisar de mais acessibilidade. Mesmo que a pessoa não seja deficiente, se por alguma infelicidade ela sofre uma acidente e quebra a perna, ela vai precisar dessa acessibilidade. Essa melhoria nessa questão é muito importante para todos e acredito que estamos bem atrasados com relação a isso na cidade”, relatou.

“Existem muitas pessoas na cidade que não respeitam, estacionam em vagas de idosos e deficientes. Essa semana o vereador Rafael Kocian tirou foto de uma caçamba na vaga para deficiente, e teve que fazer um requerimento. Não haveria necessidade disso, se as pessoas tivessem mais consciência. Falta bom senso”, disse.

“Acho que a visibilidade e acessibilidade dos deficientes melhorou bastante de décadas para cá, porém, ainda tem muitas coisas a serem melhoradas. Aumentou bastante o número de pessoas com deficiência que estão no mercado de trabalho, praticando esportes, elas estão aparecendo um pouquinho mais”, opinou.

Esporte e atividade física

“A atividade física é muito importante para todas as pessoas, inclusive para deficientes e idosos. Vamos envelhecer, a mobilidade que tínhamos há 10, 15 anos, não temos mais hoje. Se não fizermos uma atividade física, essa progressão de limitação de movimento, vai ser maior. Se eu tivesse parado com a atividade física, fatalmente hoje eu estaria em uma cadeira de rodas. Eu continuo para me dar um pouco mais de mobilidade. E a atividade física é importante em todos os sentidos”, afirmou.

“O esporte para mim é vida. Quando vou competir, me sinto muito bem naquele ambiente, mesmo que eu ganhe ou perca. A primeira lição que eu tive quando fui competir foi essa, de você olhar e ver tantas deficiências diferentes, e às vezes reclamamos de tantas coisas bobas. Eu, por exemplo, sinto dor nas pernas e reclamo. Quando chego no ambiente de competição, vejo as outras pessoas, que não tem os membros inferiores, outras que não tem os superiores, pessoas que não enxergam, e fico pensando em como elas se viram com todas as dificuldades. O esporte é superação, alegria, é muita coisa boa”, comentou.

“Eu não estou focando em ganhar ou perder, mas no meu desempenho, quero conseguir o máximo que eu puder. Meu sonho como atleta é representar o Brasil. Não sei se meu corpo vai aguentar tudo isso, mas a ideia é essa. Tenho 46 anos, o esporte paralímpico favorece esse tipo de coisa, porque não tem idade”, encerrou.

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