quarta-feira , 22 setembro 2021
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Representante do Alcoólicos Anônimos falou sobre o aumento do consumo de álcool

Aumenta o índice de mulheres alcoólatras durante a pandemia

Cerca de 40% dos novos participantes do A.A são mulheres com idade abaixo de 40 anos

De acordo com uma pesquisa divulgada pelo SIM (Sistemas de Informações sobre Mortalidade), ferramenta oficial do Ministério da Saúde, responsável por registrar os óbitos no Brasil – do ano de 2019 para 2020, houve um aumento de 18,4% nas mortes relacionadas a transtornos mentais e comportamentais devido ao consumo de álcool. Em 2020, foram 7.612 mortes, com aumento a partir de abril, logo depois dos primeiros casos e mortes por Covid-19 no Brasil. Em todo o ano de 2019, foram 6.428.

A situação provocada pela pandemia, aumentou mais ainda o consumo de bebidas alcoólicas. A Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins e a Universidade de Maryland, nos EUA, fizeram alguns estudos, e como resultado comprovaram que o isolamento social foi a principal causa do aumento do consumo de álcool durante a pandemia. O trabalho foi desenvolvido em dezembro de 2020 com entrevistas online. Ainda, em fevereiro deste ano, a Associação Americana de Psicologia informou mediante a uma pesquisa, que 25% dos adultos passaram a beber mais para lidar com o estresse gerado durante esse período.

A Gazeta do Rio Pardo em parceria com a Rádio Difusora, entrevistou o coordenador do grupo A.A (Alcoólicos Anônimos) de São José do Rio Pardo, para falar sobre o alcoolismo, e comentar o aumento do número de casos.

O entrevistado diz que há 43 anos frequenta as reuniões do A.A, e tem uma vida dentro do grupo de Alcoólicos Anônimos. “Minha chegada lá foi até estranha, porque procurei o grupo para ver se eu achava um jeito de beber menos, porque eu não queria parar de beber. Queria aprender a beber sem ficar bêbado. Mas não é assim que funciona. O alcoólatra é uma pessoa que ingere a bebida, e não tem o controle sobre a maneira de beber. Eu sou um desses. Eu parei de beber na primeira reunião que assisti, desde então, não tive mais contato com a bebida alcoólica. Depois desses anos todos, se eu experimentar um gole de bebida, vou voltar a beber como há 43 anos”, declarou.

Não tem cura

Para os especialistas e segundo confirma o membro do A.A., o alcoolismo é uma doença que não tem cura. Se uma pessoa que sofre com o problema ingerir álcool novamente, mesmo após ter parado durante muitos anos, o vício retorna.

“Todas as pessoas que sofrem de alcoolismo, negam a doença, mesmo que estejam bêbadas, sem conseguir ficar em pé.  Eles dizem que sabem se controlar. Sempre dizem: eu paro quando quiser. O que não é real. Mentir é uma característica dos alcoólatras. Eu mesmo, dizia que bebia controladamente, mesmo exagerando. A parte mais difícil é a pessoa aceitar que é alcoólatra”, observou.

Pandemia

O entrevistado explicou que quando começou a pandemia, todos os grupos de A.A. precisaram ser fechados, devido ao decreto estadual e municipal. “No início não tínhamos mais reuniões. Depois de uns dois, três meses, começamos a fazer reuniões esporádicas para nos encontrarmos e ver como o pessoal estava. Depois disso começamos a realizar reuniões online. Temos um escritório em Pirassununga, e fomos formando alguns grupos para as reuniões. Nós todos acessávamos o link e tinha um coordenador que ia chamando as pessoas para falarem. Essas reuniões deram certo, e estão funcionando assim até hoje. Em quase todas as cidades, os grupos municipais começaram a fazer dessa forma”, explicou.

“Eu acredito que o alcoolismo aumentou durante a pandemia, porque as pessoas estavam em casa sem fazer nada. Às vezes até já bebiam fora de casa, mas depois da pandemia, começaram a consumir dentro do lar, e os familiares perceberam e reclamaram. Através dessas reclamações montaram a pesquisa, e chegaram à conclusão de que aumentou o consumo. Já nos grupos presenciais do A.A, não aumentou, muitos grupos até fecharam”, contou.

Mulheres alcoólatras

De acordo com o coordenador do grupo A.A rio-pardense, o número de mulheres que procuram ajuda por meio dos Alcoólicos Anônimos está crescendo. “Percebo isso há uns 20 anos. Tem pesquisas que apontam isso de alguns órgãos oficiais, como a OMS e a Associação Norte Americana sobre Alcoolismo. Há 20 anos, tínhamos uma frequência de mulheres no A.A de 10% a 15%. Hoje em dia, estamos com 25% a 30% de mulheres, quase o dobro. Agora durante a pandemia, aumentou muito a procura por mulheres, principalmente em nosso site”, revelou.

Desde março de 2020, 300 mulheres procuraram pelas reuniões a distância oferecidas pelo A.A, e cerca de 40% dos novos participantes são mulheres com idade abaixo de 40 anos.

Transtornos

Os transtornos causados pelo alcoolismo são inúmeros. “Vemos isso no trânsito, quantas pessoas morrem por causa de um cara embriagado dirigindo? Muitas. Além disso, o uso excessivo do álcool causa transtornos mentais, acidentes de trabalho, briga familiar, agressão contra as mulheres. Tudo isso por conta do alcoolismo”, frisou.

A.A. para todas as idades

O Alcoólicos Anônimos é um grupo totalmente gratuito. “Somos autossuficientes graças as nossas próprias contribuições. Não estamos ligados a nenhuma seita ou religião, nenhum movimento político, instituição ou organização. A pessoa entra, senta e assiste a reunião. As pessoas se identificam através do depoimento do outro. Enquanto eu estou falando do meu problema, estou ajudando a solucionar o de outra pessoa que está chegando. É um grupo de ajuda mutua”, contou.

“Tínhamos uma média de 25 pessoas que participavam das nossas reuniões, agora são oito, no máximo 10 pessoas. Acredito que pela maioria dos participantes serem idosos, podem ter parado de frequentar por medo da pandemia”, constatou.

De acordo com o coordenador, muitas pessoas procuram o A.A, depois param de frequentar as reuniões e voltam a beber. “Alcoólatras costumam ser muito orgulhosos, e acabam não voltando para as reuniões”.

“Hoje em dia somos procurados por jovens de 18, 19 anos. Mas em clínicas, existem casos de meninos de 14 anos internados por vício em álcool e drogas. Deu vontade de pegar ele no colo”, disse emocionado. 

Segundo o entrevistado, o maior desafio é a frequência nas reuniões do A.A. “Tem que ter um sacrifício. As pessoas que têm problema com o álcool, aconselho a procurar as nossas reuniões, ela é aberta ao público em geral. Têm pessoas que vão e não são alcoólatras, mas usam a nossa filosofia em benefício próprio, usam no dia a dia”, revelou.

Recuperação

O índice de recuperação das pessoas que chegam no A.A, é de 3%, considerado baixíssimo. “Existe uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde que diz que 15% das pessoas do mundo são alcoólatras. Infelizmente muitas pessoas não procuram, mesmo sendo bem divulgado na mídia”, lamentou.

Reuniões

As reuniões do A.A. são realizadas de terça e sexta-feira, às 20h00, no salão da Igreja Matriz.

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