quarta-feira , 13 novembro 2019
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Aniversário de São José, por Paulo Herculano

Aniversário de São José

Cidades tomam as feições de seu povo

 

Paulo Herculano(pauloherculano@ig.com.br)

Especial para Gazeta do Rio Pardo

 

Nada que se comprove cientificamente, mas creio que existam entre as cidades e as pessoas que nelas habitam algumas semelhanças.Sim, porque cidades são como seres vivos, orgânicos. Têm sentimentos, vivem, pulsam, respiram. Talvez possam até falecer.

A melhor forma de compreendermos uma cidade é pensá-la como um ser humano. Mas é um ser humano diferenciado, porque toma a forma das gentes que a habitam.

Explico-me melhor: na medida em que somos arrogantes, bairristas e provincianos – assim será a cidade em que vivemos.

Sim, as cidades tomam as feições de seu povo. Quando isso acontece, não há beleza natural da cidade que supere o mau-caratismo do seu povo, assim como não há feiura urbana que seja maior do que as virtudes de uma população.

Somos arrogantes? Batata! Nossa cidade tem uma triste vocação a olhar mais para dentro do que para fora, incapaz de enxergar além dos limites de suas montanhas e rios. Muito embora sejamos mais conhecidos por um livro e um filho adotivo, em que pese tantos que aqui vivem não tenham aqui nascido – mesmo assim, olhamos com certo desdém a quem vem de fora, mesmo que seja para edificar. Talvez seja porque não sabemos conjugar verbos como edificar e construir.

Desculpem-me o tom, mas vejo poucos motivos para tecer odes a nossa cidade neste seu aniversário. Em tempos outros, quando havia esperança em nossos corações, talvez entoássemos nosso lindo hino, saudando nossa linda cidade, como diz a letra. Mas, não hoje.

E nem é pela cidade, que continua um cartão postal natural, um belo exemplo do que o bom Deus é capaz de fazer quando acorda de bom humor.

Até hoje, nossos ótimos historiadores e nossos extraordinários cronistas cantaram nossa história, mas contaram a verdade pela metade – e uma meia verdade, alguém já disse, vale tanto quanto uma mentira por inteiro. Falaram de nossos feitos, de nossa ponte, da janela histórica do hotel, do engenheiro-escritor e seu livro. Contaram-nos a história dos italianos, japoneses, sírios, libaneses e quase a ONU toda que aqui está representada. Mas não falaram do que existe de mais importante. Falta escrever o capítulo da alma do nosso povo, e este sim é o elemento subjetivo que com mais eficiência molda a cidade.

Tirando “Os Sertões” e um livro que li ainda na adolescência, meu livro preferido sempre foi “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. E isto pela forma como se aprofundou na alma brasileira para descrever a gênese da nossa sociedade – aliás, bebendo na fonte do nosso tão conhecido Euclides. Mais do que escrever um livro, Freyre descreveu a alma de um povo, e a forma como a personalidade coletiva impactou nas cidades. Falta-nos um intérprete, talvez um psiquiatra coletivo. Ou, tendo a acreditar mais nisso, alguém que exorcize nossos demônios.

Sim, porque temos anjos e demônios que nos rodeiam,nos protegem e nos aterrorizam.

São José do Rio Pardo é uma cidade que precisa bem mais do que parabéns. Precisamos de oxigênio. Dessa coisa invisível, porém essencial, que é o oxigênio. Oxigenar tudo em nós – desde a periferia até o centro. Borrifar de novos ares nossos rios, córregos e esgoto que com eles se confunde formando quase que uma só e mal-cheirosa coisa. Nossa cultura, nossa política, nossa imprensa, nossa educação – e reescrevê-las com iniciais maiúsculas, porque é assim que tem que ser.

Reescrever e reler. Precisamos fazer releituras, e esta é a palavra de ordem da sociedade que se pretende moderna. E quando tentamos adentrar na modernidade, pecamos desgraçadamente, miseravelmente, tão desacostumados que estamos com tudo o que é novo. Perdoem-me pela citação expressa, mas aí estão as redes sociais que não me deixam mentir. O que seria uma ótima oportunidade de (repito) oxigenar ideias, acabou se transformando numa versão pretensamente modernosa e interativa da imprensa convencional, com os mesmos vícios e um nível muito próximo do zero de isenção. O que deveria ser uma manifestação de livre pensar, tornou-se apenas a democratização da notícia de má qualidade e parcial que, vejam só, agora está ao alcance de todos.

Provincianismo não é ruim. É charmoso, aliás. Num mundo em que esse lado cosmopolitano dos grandes centros urbanos sufoca as pessoas, a ponto de lhes fazer perder a individualidade, nosso provincianismo seria um convite a uma realidade idílica, bucólica. Mas somos péssimos vendedores de nós mesmos.

Mas nem tudo é cáustico neste 19 de março. Como que num cinematográfico final feliz, há em nós uma certeza: no fundo, todos amamos esta cidade. Temos por ela um afeto, assim como amamos a um ente querido. Os altos e baixos dessa relação cidade-gente repete, ao seu modo, os altos e baixos de nossas íngremes ladeiras, das subidas e descidas do centro, dos morros que levam à periferia, vencidos pelos muitos veículos que nos trazem a (falsa) sensação de progresso.

Sim, amamos São José do Rio Pardo. Não é o amor piegas, de se declarar apaixonado o tempo todo. É o amor cantado por Vinícius, do tipo “infinito enquanto dure”. Talvez seja um amor com prazo de validade, mas nem por isso deixa de ser amor.

Porque nosso amor pelas pessoas também é assim. Pode ser duradouro ou passageiro, mas nele há a certeza de que pode, sim, ter um fim. Mas nosso amor por essa pessoa-cidade chamada São José do Rio Pardo guarda em si algo diferente, que são nossas próprias raízes. Amemos ou não esta terra, mas nela estão nossas origens. Ela é aquilo que somos, e não o que podemos ser. Por mais triste que pareça esta realidade, mas São José do Rio Pardo representa nossos sonhos e nossas frustações. No fim, São José do Rio Pardo é uma pessoa com um potencial muito grande – mas que ainda precisa decidir o que quer ser quando crescer.

 

 

 

 

 

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