segunda-feira , 20 setembro 2021
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Pedro Augusto Breda Fontão, geógrafo e climatologista

Climatologista explica temperaturas extremas

Medidas sustentáveis podem ajudar a frear emissões de gás de efeito estufa

O período de janeiro a maio de 2021 entrou para a história do Sistema Cantareira como o que registrou os menores volumes de água desde a crise hídrica de 2014 a 2016, que gerou graves problemas sociais e econômicos em toda a região metropolitana de São Paulo, segundo o IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas). Mas não é somente a região central de São Paulo que sofre com o problema. Todo o interior paulista, especialmente as regiões próximas a São José do Rio Pardo, têm sido afetadas pela falta de chuva. Um dos reflexos visíveis para os munícipes, é o baixo nível de água do Rio Pardo. Para falar sobre os fenômenos climáticos e suas consequências, a Gazeta do Rio Pardo em parceria com a Rádio Difusora, entrevistou Pedro Augusto Breda Fontão, que é geógrafo, doutor na área de Climatologia pela UNESP, e atualmente trabalha como professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR – Departamento de Geografia). Além disso, Pedro é um dos coordenadores do Laboratório de Climatologia da Universidade.

Clima tropical

Pedro começou explicando sobre o clima. “Nós estamos em uma região de clima tropical, onde habitualmente as chuvas são mais escassas, desde meados de abril, até setembro. Todo ano, devido ao regime de chuvas em nossa região, temos o período de outono e inverno muito mais seco do que a primavera e o verão. O problema começa quando essas estiagens são prolongadas. No ano passado, por exemplo, as chuvas voltaram somente em meados de novembro, demorou muito para acontecer esse retorno de chuvas volumosas que tanto precisamos aqui na região”, relembrou.

Temperaturas extremas

O que está acontecendo, segundo o climatologista, faz parte do ritmo habitual encontrado ao longo do tempo, com alguns anos mais extremos que outros, no que diz respeito a temperatura e falta de chuva. “Ano passado tivemos um fenômeno bem interessante, a La Niña, que é um fenômeno atmosférico de escala global. Ele tem influências no Brasil e em nossa região. Infelizmente temos previsão de retorno da La Niña para o final deste ano”, informou.

Pedro Fontão falou também que existem previsões de aumento de eventos extremos, devido a mudanças climática, citando o Canadá, onde mais de 500 pessoas morreram em decorrência da alta temperatura, que chegou a atingir 49,6°C.  

“O que aconteceu no Canadá foi um extremo nunca registrado antes. Existe um mito que diz que não faz altas temperaturas em latitudes médias, e na verdade faz. No sul da Espanha, por exemplo, e no sul de Portugal, todo ano são registradas temperaturas acima de 40 ºC no verão. É uma coisa que ocorre em algumas cidades de forma constante. No entanto, quando esses extremos passam a ser mais intensos e a temperatura acaba ficando cada vez mais elevada nesses registros, conseguimos ver que o padrão está mudando e isso é um problema. Quando vemos as estimativas a longo prazo, conseguimos observar essas mudanças de padrão. Um fato curioso é que ao mesmo tempo que se registrava temperaturas muito altas no Canadá, aqui no Brasil tivemos uma onda de frio que inclusive registrou neve por três dias seguidos na Serra Catarinense. Fazia muito tempo que não acontecia isso. Além disso, teve geada generalizada no cone sul. Aqui em São José do Rio Pardo também teve registro de geadas, tivemos um dia que fez 1,5°C, temperatura muito baixa para nossa região”, revelou.

O especialista explicou que o sistema climático do planeta tem um padrão de circulação que sofre alterações com o passar do tempo. Com isso, cada região é afetada por ondas de frio ou de calor. “No entanto, essas ondas de ar ficam estacionadas por muito tempo. E podem ir se aquecendo, provocando temperaturas mais altas. Isso faz parte da circulação atmosférica do planeta, e os eventos extremos, de chuva e temperatura, também fazem parte, infelizmente. Nosso papel como seres humanos é nos planejar e nos precaver para isso”, disse.

Segundo Pedro, existem algumas estimativas pessimistas de mudanças climáticas que provocam até 7 graus de alta na temperatura média do planeta até o ano de 2100. “São modelos mais extremos, mas mesmo os mais otimistas, estão prevendo um aumento de temperatura de até 2 graus na média do planeta”, informou.

Medidas sustentáveis

O climatologista comentou durante a entrevista que ações que visam a sustentabilidade podem contribuir para ajudar a evitar consequências sérias para o meio ambiente e para o planeta, o que afeta diretamente as mudanças climáticas. “A própria mudança do modelo de nosso desenvolvimento, tornando-se algo mais sustentável, como por exemplo na Europa, que estão migrando para carros elétricos, e o Brasil a longo prazo vai seguir essa tendência também, ajuda. São medidas para frear um pouco as emissões de gás de efeito estufa. Além disso, a longo prazo, teremos que adotar outras medidas mais sustentáveis para o planeta, para evitar que fenômenos como a estiagem, fiquem menos frequentes”, declarou.

 “O desmatamento contribui para a estiagem. Na zona urbana, temos o fenômeno das ilhas de calor, isso já é documentado desde a década de 70, começou na Inglaterra. Com esse fenômeno, dentro da cidade, atinge mais de 5 graus de diferença entre regiões arborizadas, como parques e regiões mais pavimentadas, que possuem muita construção. Essa diferença de temperatura gera um desconforto muito alto para quem vive nessas regiões com muito asfalto e poucas árvores. No ambiente urbano a recomendação é plantar árvores, manter jardins, fazer um planejamento urbano adequado e a longo prazo. Em termos globais, é claro que o desmatamento de grandes florestas provoca mudanças na circulação atmosférica, diminui a umidade, isso pode provocar efeitos. É um grande desafio, ter o desenvolvimento e ao mesmo tempo manter as florestas, é preciso buscar um equilíbrio sustentável para isso”, disse.

Piores meses

Segundo Pedro, a precipitação (chuva) tem várias origens. Uma delas é a chuva convectiva, que é causada pelo aquecimento da superfície, que faz com que a umidade provoque nuvens e gere pancadas de chuva, que ocorrem no verão e na primavera. “No entanto, no inverno e outono, devido ao próprio padrão de circulação, temperatura, entre outras questões, essas chuvas não ocorrem com frequência. Elas diminuem nessa época do ano, e isso é muito associado ao avanço das frentes frias. Em agosto e setembro, são os piores meses para quem tem problemas respiratórios, porque são os meses mais secos em termos de umidade relativa do ar, e geralmente em agosto temos frio de madrugada e durante o dia a temperatura sobe muito. Isso impacta muito em nossa saúde”.

“Em volumes expressivos, acredito que só teremos chuva em meados de setembro. No entanto, podemos ter um ou dois dias de chuva em São José do Rio Pardo provocada pelo avanço de uma frente fria, mas infelizmente não tenho previsão de chuva para os próximos dias”, destacou.

Crise hídrica

A crise hídrica é um problema que preocupa autoridades e munícipes de várias cidades do Brasil, o climatologista comentou o assunto. “O nível dos reservatórios na região sudeste e centro-oeste está muito baixo, e ainda estamos no meio da estiagem, só vai voltar a chover com frequência em setembro e outubro, com estimativas de um retorno da La Niña. Os gestores estão muito preocupados com isso, principalmente com medo de faltar energia e água. A medida adotada foi ligar as termelétricas para complementar o sistema energético para evitar colapso a longo prazo. O problema da termelétrica, é que ela é uma energia considerada suja, porque queima combustível, o que também lança gases na atmosfera”.

Energias renováveis

 “O Brasil optou pelo modelo das hidroeléctricas, que gera muito impacto para o meio ambiente na construção mas depois que ela está pronta esses impactos já são reduzidos. A energia solar e eólica ainda tem muito o que avançar no Brasil em termos de tecnologia, mas são energias consideradas limpas. Porque aproveitamos a energia do sol, que está à vontade para ser utilizada, e o vento, que enquanto tiver diferença de pressão no planeta, vai existir, devido ao aquecimento da superfície. São maneiras de aproveitar o que a natureza nos dá, sem causar tanto impacto ambiental”, encerrou.

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