quarta-feira , 22 setembro 2021
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Imagem divulgada pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica

Casos de câncer de cabeça e pescoço crescem no município

Por medo da pandemia, as pessoas deixam de procurar atendimento médico e retardam o diagnóstico

O mês de julho chegou e junto com ele uma campanha de extrema relevância para a saúde pública se inicia. “Julho Verde” foi criada pela Sociedade Brasileira de Cabeça e Pescoço e tem o objetivo de conscientizar as pessoas sobre os cânceres prevalentes nessas regiões do corpo. Além de alertar sobre a existência da doença, a campanha destaca a importância da prevenção, incentivando as pessoas a ficarem atentas a qualquer sinal que represente a enfermidade. Em 27 de julho, é comemorado também o “Dia Mundial de Conscientização e Combate ao Câncer de Cabeça e Pescoço”.

Os tumores de cabeça e pescoço são uma denominação genérica do câncer que se localiza em regiões como boca, língua, palato mole e duro, gengivas, bochechas, amígdalas, faringe, laringe (onde é formada a voz), esôfago, tireoide e seios paranasais.  A médica especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, Sandra Daud, falou sobre a campanha, sintomas, prevenção e destacou números referentes ao câncer de cabeça e pescoço.

Incidência

“Tem havido um aumento do número de casos de câncer nessas regiões do corpo. No Brasil, o câncer de cabeça e pescoço é o 5º mais comum em ambos os sexos. A incidência é bastante alta. Se considerarmos que cerca de 630 mil pessoas vão evoluir com câncer no Brasil, o 5º lugar é um número bem significativo. Infelizmente na estatística do Inca (Instituto Nacional do Câncer), só no ano de 2019 tivemos 230 mil óbitos por câncer em geral”, destacou.

De acordo com a especialista, no sexo masculino, o câncer de cabeça e pescoço mais comum, é o de boca, e no feminino, o de tireoide.

Sinais

Sandra Daud, médica especialista em cirurgia de cabeça e pescoço

Qualquer ferida na boca, garganta, lábio, lesões na pele da cabeça e pescoço, presença de caroço, rouquidão, que dure mais que 15 dias, deve ser investigado por um médico. “O ideal é procurar um profissional que saiba analisar esse tipo de lesão. Tem muitos dentistas que fazem o diagnóstico e me encaminham os pacientes, otorrino, clínico geral, eles podem fazer uma avaliação e encaminhar o paciente a um médico de cabeça e pescoço”, disse.

De acordo com a profissional, a maior parte dos tumores malignos não evoluem com dor no momento do diagnóstico, quando ainda são iniciais. “Só começam a apresentar dor, quando estão mais avançados. O câncer às vezes é uma doença silenciosa por conta disso, por não apresentar dor, o que é um sinal de alerta”, afirmou. 

“O tratamento precoce é muito importante. Hoje em dia, infelizmente muitos pacientes procuram atendimento médico depois que a doença já está avançada, nesse caso, muitas vezes, não é passível de cura. A campanha é muito importante para alertar a população.

Chance de cura

Sandra explicou que a chance de cura, depende do estágio em que está o câncer no momento do diagnóstico. “Quando é descoberto no início, a taxa de cura é bastante alta. O câncer de tireoide por exemplo, o 5º mais frequente em mulher, que é o carcinoma pilífero, que é o mais comum, tem a chance de cura em estágios iniciais, maior que 90% só com a cirurgia, sem precisar fazer quimioterapia ou radioterapia. É aí que surge essa importância enorme de procurar atendimento. Uma lesão de lábio, um T1 que é um tumor inicial, tem uma altíssima taxa de cura, ao passo que um T3 e T4, é muito mais difícil de curar”, relatou.

Segundo a médica, na rede privada de saúde, os médicos conseguem diagnosticar pacientes com a doença em fase inicial. Já na rede pública, de cada 4 novos casos de câncer de cabeça e pescoço, 3 já estão avançados. “Desse número, 50% acaba evoluindo para óbito, infelizmente”, lamenta.

Prevenção e hábitos perigosos 

“É muito importante que as pessoas se consultem com um médico ou dentista para fazer a higiene oral e diagnósticos precoces na boca. A prevenção que fazemos nos consultórios com exames de rotina, é a melhor atitude que podemos ter. Se a pessoa não apresentar sintomas, fazer consultas anualmente com um médico ou dentista é o suficiente, mas se já tiver alguma outra doença ou sintomas, é preciso ir com mais frequência”, alertou.

O principal fator de risco para o desenvolvimento de câncer de cabeça e pescoço é o alcoolismo e tabagismo. Nas estatísticas mencionadas pela médica, existe um aumento na chance de desenvolver o câncer, de 30% em pessoas que fumam ou ingerem bebidas alcoólicas rotineiramente. “É um incremento muito grande, a maior parte dos pacientes que desenvolvem câncer de cabeça e pescoço, excluindo de tireoide que tem outras causas, 90% tem relação com cigarro e bebida alcoólica. Quando eles são usados em conjunto, é uma bomba em termo de riscos de desenvolvimento de câncer de cabeça e pescoço”, informou.

Com exceção do uso de cigarro e do alcoolismo, o HPV, vírus transmitido principalmente em relações sexuais sem proteção, é um fator que pode contribuir com o desenvolvimento do câncer. “Esse vírus é um dos fatores causadores do câncer em mucosas. Ele pode desenvolver o câncer no colo de útero, mas também na boca, na faringe e laringe. O cuidado na hora da relação sexual é extremamente importante”, ressaltou.

Sandra destaca que ter uma boa alimentação, consumir frutas, verduras e legumes, é um fator de proteção para vários tipos de cânceres. Segundo ela, o consumo de carne vermelha não tem relação com esse tipo de câncer. Além disso, a médica relembrou que o câncer de pele também pode acometer regiões do rosto, cabeça e pescoço, e o maior fator para proteger e evitar, é o uso rotineiro do protetor solar.

Cirurgia na laringe

“Existem dois tipos de cirurgia de laringe. Temos a Laringectomia parcial, onde é retirado só um pedacinho da laringe, e a total. Na parcial, a pessoa consegue usar o órgão para falar. Na laringectomia total, não, porque nesse caso não tem mais o órgão. Dessa forma, a pessoa fala com a voz esofágica, que é um outro tipo de fala, e com a laringe eletrônica. Mas a voz mesmo, produzida pela laringe e prega vocal, não tem mais”, contou.

O câncer de cabeça e pescoço não é uma doença exclusivamente masculina, como muitas pessoas pensam. De acordo com a médica, a doença está aumentando a incidência no sexo feminino. “Antes, excetuando a tireoide, que antigamente era o 10º câncer mais comum em mulher, e atualmente é o 5º, mulheres não apresentavam tanto o câncer de cabeça e pescoço, por conta dos hábitos que não eram tão prevalentes no sexo feminino, que é o alcoolismo, tabagismo, sexo sem proteção. Mas nos homens, o câncer de boca é o 5º que mais os acomete”.

Pandemia

Em razão da pandemia, segundo a especialista, os pacientes tem procurado os médicos com doenças avançadas e descompensadas. “O pânico que se criou em função da pandemia, está impedindo que as pessoas procurem um médico para fazer o diagnóstico precoce. Mas não precisa ter medo de ir ao consultório médico, são os lugares que tomam os maiores cuidados o possível. As pessoas precisam procurar ajuda. Infelizmente elas tem medo de ir ao consultório, mas não tem medo de ir em uma festa, na casa do amigo e ficar sem máscara. As pessoas estão deixando de ter um diagnóstico precoce por um medo sem fundamento. Se ela usar máscara, álcool em gel, não tem risco de contaminação”, comentou.

“No meu consultório vivencio isso todo dia, câncer de pele avançado, de boca, de tireoide, por medo de procurar ajuda médica. Eu operei um paciente de Campinas aqui que não conseguiu fazer a cirurgia lá, porque além do medo, muitos lugares estão fechados para cirurgia. Era um paciente com câncer que não conseguia operar mesmo sendo da rede privada. Ele ficou meses esperando para ser operado em Campinas, não conseguiu e veio para São José. A maior parte dos pacientes aparecem com um tumor já muito avançado”, encerrou.

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