domingo , 22 setembro 2019
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Artigo- À PROCURA DE RUMO

Discutir pesquisas – se estão certas ou não – é catar pelo em ovo. Não leva a nada. Por isso, tentar desfazer resultados da recente pesquisa do Ibope sobre o governo Bolsonaro sob o argumento de que este e outros institutos escancararam erros durante a campanha eleitoral, é chover no molhado.

É bem verdade que paradigmas do marketing foram jogados na cesta do lixo na campanha que elegeu Jair Bolsonaro presidente, incluindo as organizações que fazem pesquisas, mas é visível o arrefecimento da imagem presidencial. Não houve, até o momento, fato de relevância que possa sustentar a onda otimista que se formou em torno do capitão reformado do Exército, antes e logo após sua vitória.

O que está acontecendo? O presidente tem dado impulso ao tom da campanha, fustigando adversários e puxando o cordão de fiéis apoiadores; formou uma equipe com nomes que disparam polêmicas; critica-se a falta de uma campanha de expressão popular para explicar a reforma da Previdência; a parceria com bancadas temáticas fechando portas da administração federal para indicações políticas; o ruído provocado por três polos de comunicação – o familiar, o do general porta-voz Rêgo Barros e o da Secretaria de Comunicação, subordinada ao general Santos Cruz – constituem, entre outros, fatores de dissonância, com corrosão à imagem do presidente.

É sabido que a lua de mel de uma nova administração dura entre quatro a seis meses. A população tende a esperar que o governo decole. Temos, ainda, bom tempo para que se possa fazer uma análise mais apurada e completa do ciclo governamental. Mas a tendência de declínio é sensível por algumas razões.

A primeira é a falta de uma ação capaz de alavancar o entusiasmo dos eleitores. O governo dispõe de amplo e denso pacote de programas que passarão pelo corredor congressual. O presidente, por sua vez, reacende ânimos com suas mensagens nas redes. Dá a entender que vai continuar em palanque. O núcleo familiar causa barulho, com destaque para a suspeição envolvendo Fabrício Queiroz, ex-assessor do então deputado Flávio no RJ; Carlos é afeito à guerra continuada. E o deputado Eduardo se credencia como um “co-chanceler”, despertando ciúmes do titular do Itamaraty, Ernesto Araújo.

Na frente política, a articulação é precária. Não há lideranças de qualidade. Os canais com o Congresso são estreitados em função da estratégia de Bolsonaro de evitar governar com os braços presos ao presidencialismo de coalizão. Deixa espaços curtos para as indicações de cunho político. Paulo Guedes se mexe de um lado para outro. Luta para aprovar uma reforma que expande polêmica. Tem até gosto para ver o pacotão da Previdência aprovado no Congresso.

Depois de agosto, as dificuldades aumentarão. Com força bem menor, o governo enfrentará barreiras não apenas nas oposições como nos próprios aliados. O fato é que a identidade do governo Bolsonaro ainda não se firmou. Tateando na escuridão – é a impressão que passa. O ultraconservadorimo que funciona como marca da administração, e que se faz presente em pautas como aborto, escola sem partido, ideologia de gêneros, agrada aliados, mas abre contrariedade.

As tragédias deste início de ano – Brumadinho (MG), os assassinatos de jovens em Suzano (SP) – baixaram uma sombra de desalento e medo. Ampliar o acesso às armas – como defendem a bancada da bala e a esfera do agronegócio – é uma discussão que acende a fogueira de alas a favor e contra. O campo educacional vive uma balbúrdia. O ministro Vélez não sabe se fica ou “será convidado a deixar o cargo”.

A prisão do ex-presidente Michel Temer gera nebulosidade no horizonte político. O instinto de sobrevivência dos políticos abre um alerta. Juiz e promotores antecipam julgamento com inferências pesadas. Desfaz-se o clima propício à aprovação da Previdência. A distância entre bolsonaristas e não-bolsonaristas se expande. A visão de que o avião governamental começa a perder altura na decolagem parece correta. Rodrigo Maia, peça-chave na engrenagem, recua alguns passos. Acende-se o sinal amarelo.

Escrito por Gaudêncio Torquato:  jornalista,  professor titular da USP, consultor político e de comunicação.

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