quarta-feira , 22 setembro 2021
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Instalada na Avenida Brasil, a Venda do Juca já foi local de referência para trabalhadores e viajantes

A última venda

A insólita Venda do Juca: um dos últimos estabelecimentos comerciais da cidade, como nos tempos de antigamente

Por Gilmar Ishikawa

No constante vai e vem da Avenida Brasil, quem passa apressado, entrando ou saindo da cidade, pouco observa. Em um prédio de três portas frontais estreitas, pé direito alto, fachada com um pequeno toldo e platibanda reta está a Venda do Juca, um comércio familiar modesto, mas com um estoque variado de história. Se não é o último, é um dos últimos empreendimentos comerciais da cidade que resistem aos layouts da modernidade.

O balcão, que vai de um lado a outro, tem uma vitrine com aqueles doces coloridos de abóbora e batata. Doces de amendoim, canudos, pipoca doce, paçocas e até um nostálgico baleiro giratório. Atrás, a inconfundível parede com as extensas prateleiras – agora de aço e não mais de madeira – lotadas das mais variadas bebidas: da tradicionalíssima Cachaça 51 ao Velho Barreiro, passando pelos conhaques, jurubebas e outras mais, todas elas caprichosamente alinhadas, praticamente incorporadas à decoração.

No teto, penduradas num varal, feito bandeirolas juninas, balançam coloridas pipas – como que esperassem os meninos de antes, pois os de agora preferem o vídeo game e o celular.

A maior parte da clientela é formada pelos trabalhadores. Alguns passam para comprar um cigarro. Outros, para tomar um café. Nada de expresso. É daqueles feitos em coador de pano.

Quem também frequenta a Venda do Juca é o pessoal que toma ônibus com destino a Itobi ou Casa Branca, uma vez que em frente ao local está, ainda, a última parada urbana para os ônibus intermunicipais. O movimento começa às 7h00.

“Antes de existir a Perimetral todos os ônibus passavam por aqui. Tinha ainda os caminhões. Os vendedores. O pessoal que trabalhava na roça”, relata Maria Rodrigues, 54 anos de idade, uma das responsáveis pelo empreendimento. “Tudo mudou”, diz.

Sustento dos filhos

Maria e Conceição Rodrigues, filhas do Juca, o fundador da Venda que resiste ao tempo na Vila Brasil

A Venda do Juca foi fundada por José Silvério Rodrigues, o Juca, um batalhador, conforme contam as filhas Conceição Aparecida Rodrigues, de 85 anos de idade, e Maria Rodrigues, às quais restou a missão de continuar o negócio familiar.

Segundo Conceição, quando o pai começou o pequeno comércio, o objetivo era garantir o sustento da família, que era grande. “Treze filhos”, conta, observando que antes, moravam em fazendas desta região.

“Nas fazendas, ele vendia umas pingas, alguns doces. Era muito simples. Colocava uma mesa e organizava ali o que tinha para vender. Era pouco dinheiro, mas ajudava”, recorda Conceição.

Já na cidade, quando instalou o negócio, Juca assegurou que dali ele compraria um terreno para cada filho. E assim o fez com o passar dos anos.

Detalhe: Juca não tinha as duas mãos. Num tempo em que crianças trabalhavam na roça, ele foi vítima de um acidente, aos 4 anos de idade.

Certo dia, moendo cana, uma das mãos ficou presa no engenho. Tentou se soltar e, ao colocar o outro braço, teve ambos prensados na máquina.

“Mesmo assim ele escrevia, tinha uma letra boa. Prendia a caneta na dobra do braço. Anotava tudo em cadernos”, diz Maria, comentando que se procurar bem, ainda há cadernos guardados com a letra do pai.

Por ocasião da reportagem, não conseguiram localizar nenhum documento com referências à data de instalação do pequeno comércio. “Mas faz tempo. Eu tinha 15 anos, agora estou com 85”, relata Conceição.

Diversificando

Quando este repórter, ainda adolescente, conheceu a Venda do Juca, o ano era 1989. Comprava bala, um tipo de sorvete chamado “moreninha” e, ocasionalmente, fichas telefônicas. Entre outras coisas, o local vendia também bombinhas juninas e pão com mortadela – e não era pouco. O movimento era intenso. A pequena loja estava constantemente frequentada por crianças, homens e mulheres de todas as idades.

Os anos se passaram. A Venda do Juca foi ganhando concorrência das muitas mercearias que surgiram naquela região que, por fim, ganhou até um supermercado.


Simples e acolhedora, a Venda do Juca mantém as características dos empreendimentos de antigamente

Hoje, o que se vende são produtos comuns. Refrigerantes, balas, acessórios de bijuteria e até algumas roupas – expostas à vista do cliente. O local também virou ponto de vendas do boleto de sorteio Hipersaúde.

“Antes tinha até rolo de fumo no balcão. Meu pai vendia assim, em pedaços”, comenta Conceição.

Maria explica que a pequena venda deveria estar melhor organizada e com mais opções de produtos. Mas, há cerca de 15 anos, o local foi alvo de um grande roubo. Desde então, não tem grandes estoques.

“Deve ter sido de domingo para a segunda-feira. Havia uma obra ao lado. Pegaram uma escada, colocaram sobre o muro e levaram praticamente tudo. Caixas de cigarros, refrigerantes, roupas. Até um relógio de bolso, de ouro, que era do meu pai”, relembra Maria, com tristeza. “De lá para cá, começamos praticamente do zero”, completa.

As irmãs Rodrigues dizem que, enquanto tiverem saúde, continuarão o empreendimento da família.

E ali, nas histórias na Venda do Juca, o vai e vem da Avenida Brasil faz uma pausa.

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