sexta-feira , 18 setembro 2020
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Imagem retirada do vídeo da reportagem do portal G1

Soro com plasma de cavalo tem anticorpo 50 vezes mais potente contra a Covid-19

O biólogo Edilson José Guerra fala sobre a fabricação do soro, eficácia das vacinas e medicamentos em estudo

Cientistas brasileiros anunciaram no mês de agosto, em sessão da Academia Nacional de Medicina, uma nova descoberta. Cavalos receberam a proteína Spike do Sars CoV-2, responsável por infecção das células humanas, e desenvolveram um anticorpo neutralizante de 20 a 50 vezes mais potente contra a Covid-19. Segundo Jerson Lima Silva, pesquisador da UFRJ, o próximo passo será a aprovação dos estudos clínicos, os testes em humanos, para averiguar a segurança de um tratamento sorológico contra a Covid-19. Ele disse durante uma entrevista ao G1, que está em contato com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e explicou que a potência 50 vezes maior do anticorpo dos cavalos é um número conservador, já que conseguiram encontrar nos experimentos anticorpos até 100 vezes mais potentes.

  Edilson José Guerra, professor de biologia na Feuc e PHD em biologia molecular, concedeu uma entrevista à Gazeta do Rio Pardo e explicou sobre a nova descoberta científica brasileira, além de comentar sobre as expectativas para o desenvolvimento da vacina contra o a Covid-19 e eficácia de medicamentos.

Soro vs Vacina

“A fabricação de soros contra diversos antígenos que assolam a humanidade já remonta décadas e com resultados muito satisfatórios. A soroterapia ocorre da seguinte forma, um antígeno, que pode ser uma proteína viral, bacteriana ou peçonha de serpentes, é aplicado em doses terapêuticas em cavalos. Quando o cavalo recebe o antígeno, seu sistema imunológico é sensibilizado para produzir anticorpos contra esse determinado antígeno. Esses anticorpos ficam no plasma sanguíneo do animal e, pode ser obtido para uso em humanos através da sangria do equino com posterior centrifugação do sangue, a fim de separar o plasma que contém os anticorpos das células presentes no sangue. Esse plasma contendo anticorpos pode ser utilizado em humanos para neutralizar antígenos de cepas patogênicas circulantes em uma pessoa doente. Embora seja muito eficaz, a soroterapia é uma imunidade passiva, ou seja, o sistema imunológico do ser humano que recebeu o soro não é sensibilizado para produzir os anticorpos contra essa determinada doença, uma vez que recebe esses anticorpos que foram desenvolvidos em outros animais. Dessa forma, o paciente ainda permanece vulnerável a contrair novamente a doença muito rapidamente”, explicou.

“Já a vacina, ao contrário do soro, é uma imunidade artificialmente adquirida, ou seja, a pessoa recebe o antígeno atenuado, que não é capaz de desenvolver a doença, mas é potencialmente capaz de ativar o sistema imunológico para a produção de anticorpos. Dessa forma, a pessoa fica protegida por um período muito mais longo dessa determinada patologia. A soroterapia é muito utilizada no tratamento de pessoas que sofrem acidentes com animais peçonhentos como, por exemplo, serpentes, aranha e escorpiões, cujo soro também é produzido em equinos da mesma forma, ou seja, através da inoculação de venenos em doses terapêuticas para sensibilizar o sistema imunológico do animal a produzir anticorpos contra as proteínas constituintes das peçonhas”, completou.

Mais de 150 medicamentos avaliados

“Existe um grande empenho da comunidade científica em desenvolver um medicamento contra o coronavírus, tanto é que a lista desses fármacos que estão sendo testados já ultrapassa a soma de 150 medicamentos que estão sendo avaliados em 1.765 estudos de renomados laboratórios que se encontram espalhados pelo mundo. No entanto, ainda não temos nenhum medicamento e também nenhuma vacina reconhecidamente eficaz contra a Covid-19, portanto, as medidas profiláticas ainda são as maneiras mais eficazes contra o coronavírus.

Diferença entre Cloroquina e Hidroxicloroquina

A China desaconselhou o uso de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com coronavírus. O medicamento não tem comprovação científica de eficácia contra a doença, mas foi defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo dos Estados Unidos, Donald Trump. No entanto, o governo chinês recomendou o uso de um medicamento semelhante para a malária, chamado cloroquina. Edilson falou sobre a diferença dos medicamentos.

“A cloroquina e a hidroxicloroquina são medicamentos de formulações diferentes, mas que são sintetizados como o mesmo princípio ativo, que é o quinino. O quinino é uma substância extraída da casca da Chinchona, planta bastante comum na América do Sul, principalmente na floresta Amazônica e, é um medicamento tradicionalmente utilizado na prevenção e tratamento da malária desde o século XVII, e que ganhou destaque com o advento do coronavírus. No entanto, ainda não há comprovação científica de sua eficácia no tratamento de pessoas acometidas pelo coronavírus. Os benefícios clínicos dos dois medicamentos são muito parecidos, porém, os efeitos adversos não, sendo que a hidroxicloroquina é considerada um pouco mais segura, com menos efeitos colaterais, por isso que ela é mais indicada que a cloroquina nos tratamentos para a qual é indicada, sendo que a Covid-19 não elenca o rol de doenças que possa ser tratadas com o medicamento. Quanto ao fato do governo Chinês recomendar a cloroquina ao invés da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 é no mínimo muito estranho uma vez que além da eficiência de nenhum dos dois medicamentos ter sido comprovada cientificamente nos tratamentos de pessoas acometidas pelo coronavírus, a cloroquina causa efeitos adversos bem mais severos que a hidroxicloroquina como, por exemplo, alterações visuais, zumbidos no ouvido, distúrbios gastrintestinais e arritmias cardíacas com risco de morte. Pelo fato da hidroxicloroquina oferecer menos efeitos colaterais ao paciente durante um tratamento para qual é indicada, ela se torna um medicamento bem mais caro que a cloroquina.

Eficácia da vacina

 “Em termos de imunização artificial, não existe uma proporção de 100% de eficácia. Uma vacina eficaz tem uma seguridade de aproximadamente 93 a 97%. A vacina que hoje é utilizada em campanhas contra a gripe confere proteção em cerca de 60 a 70% dos casos, ou seja, de cada dez pessoas que são imunizadas contra a influenza, cerca de três ou quatro ainda podem contrair a doença ou desenvolvê-la após ser vacinado. O vírus da influenza que causa a gripe, assim como a Covid-19, também é uma estirpe viral RNA que também acomete as vias respiratórias, dessa forma, eu acredito que essa mesma porcentagem de eficiência da vacina contra a influenza (60 a 70%) também pode ser estendida contra a Covid-19, assim que ela for liberada para a imunização da população”, afirmou.

“Quanto aos medicamentos que estão sendo desenvolvidos para o tratamento da Covid-19, serão utilizados apenas para aliviar a sintomatologia da pessoa infectada pelo vírus, assim como são atualmente utilizados os medicamentos em um quadro gripal, ou seja, o medicamento não eliminará o vírus, apenas amenizará os sintomas. Dessa forma, a grande saída ainda seria a imunização vacinal, ainda que essa imunização seja estabelecida com baixos índices de eficiência face às características genéticas do vírus. Ademais, eu penso que ainda corre-se o risco de contrair a Covid-19 após a inoculação da vacina, assim como aconteceu com a tentativa de se desenvolver uma vacina contra o vírus da dengue”, encerrou.


Edilson José Guerra, professor de biologia na Feuc e PHD em biologia molecular

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