segunda-feira , 2 agosto 2021
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Médico alerta para a diferença entre anemia e leucemia

Crianças com leucemia aguda têm mais de 70% de chance de cura

Nesse mês acontece a campanha Junho Laranja, dedicada à informação e prevenção sobre a saúde do sangue. Além de abordar sobre a importância da transfusão de sangue, a ação destaca duas das condições mais frequentes relacionadas ao sistema sanguíneo: a anemia e a leucemia. Para falar sobre essas duas doenças, a Gazeta do Rio Pardo em parceria com a Rádio Difusora, entrevistou o oncologista Felipe Osório Costa, que atua na Unimed Rio Pardo e na Unicamp.

Leucemia

O médico começou explicando o processo de desenvolvimento da leucemia. “É um tumor que se inicia na medula óssea, onde ocorre a formação das células do sangue. Temos três grandes tipos de células sanguíneas: os glóbulos brancos, responsáveis pela imunidade, os vermelhos, que são as hemácias que fazem o transporte de oxigênio do pulmão para todo o organismo, e as plaquetas que têm a função principal de coagulação de cicatrizes e ferimentos. É um tumor dos glóbulos brancos. Esses glóbulos tem um processo de maturação. Eles se iniciam de uma forma embrionária assim como um feto. Ao longo de sua maturação, os glóbulos brancos adquirem características de um glóbulo normal, que passa para a circulação periférica, que são as artérias e veias em nosso organismo. A leucemia acontece por uma proliferação descontrolada dos glóbulos brancos, eles crescem muito além do esperado. Consequentemente eles interferem na produção de glóbulos vermelhos e plaquetas”, informou.

Anemia

De acordo com oncologista, a proliferação descontrolada dos glóbulos brancos, que acabam interferindo nos vermelhos, pode resultar em uma anemia. Mas, segundo ele, essa não é a principal causa do problema. “O fator causador das anemias, está diretamente ligado aos glóbulos vermelhos. Quando recebemos o hemograma, que é o exame que avalia o sangue, e ele apresenta uma diminuição nos glóbulos vermelhos, sem o aumento dos brancos, ou mudança das plaquetas, temos uma anemia, que tem como causa principal os sangramentos. Nas mulheres, por exemplo, podemos ter um sangramento vaginal aumentado, mioma, sangramentos de doença intestinal. Eventualmente, em outros casos, por uma diminuição do ferro ou de algumas vitaminas importantes na produção dos glóbulos vermelhos. A maioria das pessoas que têm anemia, não terão leucemia. Mas o paciente que tem leucemia, possui alguns sintomas típicos de anemia. Nesse caso, no hemograma podemos encontrar a anemia, mas aí teremos um aumento grande dos glóbulos brancos. Essa é uma primeira forma de diferenciar as doenças”, relatou.

Tipos de leucemia e diagnóstico

Felipe explicou que existem alguns tipos de leucemia que possuem uma evolução muito rápida. São classificadas como agudas. Em contrapartida, existe a crônica, que costuma ser silenciosa. “Os sintomas mais comuns são relacionados a anemia, como cansaço e fadiga, ou relacionados a diminuição das plaquetas, como um sangramento mais facilitado. A pessoa vai escovar os dentes, e a gengiva sangra, e nesse caso, o tempo de sangramento é maior do que o habitual. Esses sintomas podem avançar rapidamente, o que pode caracterizar a leucemia aguda, ou pode ter um sintoma lento, como a fadiga e cansaço, mas a pessoa consegue manter a rotina. Depois de um tempo vai fazer uma avaliação, e encontra a anemia relacionada ao aumento dos glóbulos brancos”, informou.

O primeiro passo para o diagnóstico da doença, é fazer um hemograma. “Se tiver uma suspeita, e o resultado foi o aumento dos glóbulos brancos, passamos a ter a necessidade de um exame que avalie a medula. Temos o mielograma, com uma agulha mais fina, ou a biópsia, que tem a agulha mais grossa. O exame normalmente é feito no osso no meio do peito, chamado esterno, ou no osso da bacia, quando é a biópsia, fundamentalmente. Com esses exames conseguimos avaliar com técnicas mais sofisticadas, em que fase embrionária do glóbulo branco estava a célula que se tornou cancerígena. Com base nessas duas características podemos diferenciar os principais 4 tipos de leucemia: mielóides ou linfoides, que podem ter um curso clínico agudo, que é mais grave, ou crônico, mais silencioso.

De acordo com o médico, as leucemias crônicas são mais encontradas em adultos, sendo raras na infância. “Entre as agudas, a leucemia linfoide, é quase que exclusiva das crianças, sendo rara em adultos. Já a mielóide, podemos ter tanto em adultos como em crianças”.

Tratamento

“O tratamento é bastante tóxico, com quimioterapia. O organismo da criança tem uma capacidade maior de suportar essa fase, a quimioterapia consegue ser mais potente na criança e isso é importante para conseguirmos eliminar as células cancerígenas. As leucemias agudas nas crianças, no início são graves, com risco de sangramento, infecções, o tratamento de forma geral deve ocorrer em centros especializados, mas atualmente ela tem um bom prognóstico, a chance de cura é acima de 70%. Aqui em São José acompanhei algumas crianças que foram tratadas no Hospital Boldrini, e estão curadas, o que traz uma satisfação muito grande”, comemorou.

Felipe mencionou que a recuperação de uma leucemia aguda em um idoso, possui uma recuperação difícil. “Em um adulto jovem de 20 a 30 anos, a pessoa consegue lidar bem com as toxidades do tratamento, mas se o diagnóstico já é depois dos 60 anos, muitas vezes o organismo da pessoa já vem com alguma dificuldade, comorbidade, isso já dificulta que ele lide com as dificuldades. Nesse caso, o prognóstico de leucemias agudas em idosos é mais difícil”, completou.

“As leucemias crônicas tem tido desenvolvimento de tratamentos bastante específicos e temos conseguido diminuir muito a expansão dos glóbulos brancos. Dessa forma, temos a melhora da anemia, das plaquetas, e o paciente fica sem sintomas levando uma vida boa. A crônica tem um tratamento de manutenção, diminuição daquela dificuldade. O tratamento geralmente é via oral, a pessoa faz em casa, é bem mais tranquilo. No caso dessa leucemia, podemos ter casos de interrupção de medicamento e acompanhar, mas é difícil afirmar que é possível suspender de vez a medicação, que a pessoa ficará sem ele por muito tempo”, explicou o oncologista.

Prevenção

Segundo o médico, não há evidências de uma associação clara ao surgimento da leucemia, como acontece com o câncer de pulmão, por exemplo, que está relacionado com o uso do cigarro. “Não temos um fator de risco identificado. Muitas vezes é uma alteração na formação da pessoa que teve alguma *deleção de um gene, que provocou a leucemia aguda. Dizer que é um fator ambiental ou de hábito da pessoa, seria precipitado. Mas sabemos que existem casos de relação com exposição à radiação, inseticidas, recentemente descobriu-se uma certa associação com obesidade também. Além do uso de EPI para quem trabalha exposto a radiação ou com inseticidas, recomendamos hábitos de vida saudável, que pode prevenir qualquer neoplasia, como evitar cigarro, bebida alcoólica sem moderação, boa atividade física, dieta balanceada rica em fibras, que ajuda a manter um peso ideal. Essas seriam as medidas gerais”, destacou.

Transplante de medula

Em 2019, o Brasil realizou 3.805 transplantes de medula óssea (TMO) em adultos e 534 em crianças. Os dados são do Registro Brasileiro de Transplantes. O médico falou sobre o tema durante a entrevista.

“O transplante depende muito da célula que foi identificada como sendo a cancerígena, e vai depender também de como ela irá suportar o protocolo de quimioterapia inicial. Muitas vezes podemos perceber que a quimioterapia na dose convencional não vai conseguir eliminar todas as células cancerígenas, e nesse caso precisaria ter o transplante de uma medula sadia. Como qualquer transplante de órgão, temos a questão da imunidade”, disse.

“Nossa imunidade reconhece toda célula, antígeno, que não é própria do nosso organismo. Esse é um mecanismo importante para combater bactérias e vírus. Mas quando transplantamos outro órgão, ele vai reconhecer. Precisa ter uma harmonia muito grande da medula que vai ser doada com o paciente que vai receber. Normalmente essa busca se inicia pela família, mas eventualmente essa harmonia não é grande o suficiente e não temos uma compatibilidade na família para fazer a doação. Mesmo não sendo entre familiares, quando temos um grupo grande de pessoas, existe a chance dessa compatibilidade entre pessoas que não são da mesma família. O fato de termos bancos de doação bem organizados, possibilita que quando existir um paciente precisando de uma medula, rapidamente ela seja encontrada. Isso é essencial para salvar aquela vida”, destacou.

Pelo site da ABRALE (Associação Brasileira de Leucemia e Linfoma), – https://www.abrale.org.br/ ou do Hemocentro da Unicamp- https://www.hemocentro.unicamp.br/, local onde o Dr. Felipe trabalha, é possível ter acesso a todas as informações necessárias para que os interessados se cadastrem, e sejam inseridos no banco de doadores de medula óssea.

“A satisfação de contribuir no tratamento e na cura de alguém é enorme. Dá um sentido muito especial em nossa vida quando vemos outra pessoa tendo sua cura, sua melhora, a partir de uma ação nossa”, encerrou.

*Deleção- designação dada em genética à perda total ou parcial de um segmento do cromossomo. Está ligada a várias anomalias cromossómicas. De maneira mais particular, o termo designa a perda de sequência(s) nucleotídica(s) pelo genoma de um organismo.

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