sexta-feira , 14 agosto 2020
Início / Brasil & Mundo / ‘Missy, uma história de amor’: primeiro livro 100% inclusivo do Brasil
Missy veio para o Brasil com 5 anos de idade e se tornou parte da família de Izabella (Crédito: Marçal Duarte e Jonhny Duarte)

‘Missy, uma história de amor’: primeiro livro 100% inclusivo do Brasil

Pensando nas crianças portadoras de deficiências, Izabella utilizou a história de sua cachorra para retratar superação

Lançado em 2015, escrito pela mineira Izabella Menicucci Badra, o livro “Missy: Uma história de amor”, foi o primeiro livro infantil produzido para pessoas com ou sem deficiência. Toda sua história é escrita em letras ampliadas e Braille, acompanhada de um CD com audiodescrição. A história é contada pela Missy, uma cachorra da raça pointer inglês que fez parte da família da autora. Além disso, o livro possui um QR code que pode ser acessado através do aplicativo do celular, que mostrará toda a história contada em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).

Izabella tem uma fazenda em São José do Rio Pardo, onde está passando uma temporada, e concedeu uma entrevista ao jornal para falar sobre o livro, além de contar a história de Missy, que serviu como inspiração para a criação do projeto.

Nascida em Belo Horizonte, a autora tem 57 anos, e mora em São Paulo há mais de 30 anos com a família.

“Nunca imaginei escrever um livro, aconteceu na minha vida, não sei o porquê. Sempre trabalhei com crianças, fui bailarina, tive uma escola de dança, e na época, eu incluí crianças com deficiência intelectual na minha sala de aula de ballet, coisa que ninguém fazia. Mas eu não tinha formação para isso, era uma coisa intuitiva, e dava muito certo. Eu não diferenciava uma criança da outra, tratava todas igualmente. Essa minha atitude mostrava para as crianças que não tinham deficiência, que as que tinham, não eram diferentes. Eu tratava com naturalidade. A deficiência, qualquer que seja, tem que ser tratada com naturalidade, as pessoas às vezes têm medo dos deficientes, do desconhecido”, contou.

“No Brasil, esse assunto está sendo abordado de uns 5 anos para cá. O deficiente vivia dentro de casa, não tinha espaço nem acessibilidade, não tinha nada. Quando eu fazia isso, há 30 anos, era encarado como loucura, falavam que eu era doida por pegar uma criança com deficiência intelectual e colocar na sala de aula junto com uma criança sem deficiência. Mas elas respondiam muito bem, o ballet é um exercício de repetição, para a deficiência é a mesma coisa. Para que o portador de deficiência se desenvolva, ele precisa de repetições. Como o ballet é a arte da repetição, é preciso fazer o exercício várias vezes, isso fazia com que a criança que tinha deficiência intelectual, conseguisse desenvolver um movimento que ela jamais poderia sonhar um dia. Quando elas conseguiam, fazíamos a festa, aplaudíamos, e eu percebia que as crianças estavam melhorando, mas não falava nada, deixava as outras crianças perceberem, e quando elas percebiam, ficavam felizes pelas outras. Isso foi um diferencial na minha vida”.

“O deficiente tem uma coisa diferente, mas é uma pessoa igual a todo mundo. Pode ser seu amigo, conviver com você, é possível aprender muito com ele, e ele com você. Até hoje eu vejo que tem um caminho longo para percorrer, mas já tem muito mais pessoas que encaram com naturalidade, e temos deficientes incríveis na internet, que podem passar muitas coisas para nós, para aprendermos com eles”, relata.

Missy


Missy era da raça pointer inglês (Crédito: Marçal Duarte e Jonhny Duarte)

“Tudo começou quando meu marido trouxe a Missy dos Estados Unidos. Criávamos a raça pointer inglês, ganhamos um casal e ficamos encantados com a personalidade deles, eram carinhosos e muito ligados ao dono. Então resolvemos criar a raça. Entramos em contato com vários criadores do Brasil, e descobrimos que tinha uma cadela que tinha sido campeã nos EUA, mas não foi por isso que compramos ela. Era muito bonita e estava à venda, então resolvemos comprá-la, já tinha 5 anos de idade. Ela veio para o Brasil e teve que fazer uma quarentena em casa, antes de ir para a fazenda, porque todos os nossos animais ficavam lá. Nesse meio tempo que ela ficou em casa, eu me apaixonei por ela, e ela por mim. Ela se tornou uma integrante da família. Quando eu saia com ela na rua, chamava a atenção de todos pela beleza. Meus filhos eram pequenos e brincavam muito com ela, que era muito dócil. Minha filha achava as orelhas dela muito macias, e falava que quando ela morresse, ia fazer uma bolsinha com as orelhas dela. Isso me despertou uma ideia, de fazer algo para deficientes visuais, mas eu não sabia o que. Fiquei com aquilo na cabeça, pensando o que eu poderia fazer, e como já tinha trabalhado com deficiência intelectual, fiquei com aquilo na mente”, relembrou.

O Livro

“As ideias começaram a surgir, e pensei em fazer o livro, contando a história dela, com uma linguagem infantil, relatando desde quando ela saiu dos EUA e veio para cá. Ela sofreu, não entendia os comandos em português, tínhamos que falar inglês com ela, a adaptação foi difícil. Isso tudo me mostrou que ela superou. A Missy representa superação”, disse Izabella.

  “Achei que seria interessante fazer um livro para mostrar aos deficientes que eles podem superar os problemas da vida, as dificuldades. Com isso, a criança poderia se espelhar na Missy, e ver que ela pode superar as dificuldades como a Missy superou, ela teve uma nova vida, em um novo país, com outra família, e achei que isso ia ser legal. Aí veio a ideia de fazer o livro não só para o deficiente visual, eu queria fazer algo para incluir. Queria fazer o texto em tinta, em cima do Braille, porque aí uma criança com deficiência visual, poderia ler como uma sem deficiência. Isso causaria a inclusão. Eu acredito que se você fizer um trabalho com a criança desde cedo, vai se tornar um adulto melhor. Vai encarar a deficiência como uma coisa natural, respeitar e amar seus semelhantes com aquela diferença”, contou.

“Veio a ideia para baixa visão, que é a letra ampliada, e a ideia também para o deficiente auditivo. Porque no livro tem um QR code que você lê através do aplicativo do celular, e a história toda é contada em LIBRAS. Isso era uma coisa inédita, não tinha no Brasil”.

“Doei alguns livros para uma escola de deficientes auditivos, os alunos só querem ver a Missy agora. Eles acompanham o livro, colocaram a história toda em LIBRAS em um datashow, e vão acompanhando as figuras no livro. Tem audiodescrição, e uma música que foi feita para a história, que a cantora Martinha compôs”, completou.

“Consegui idealizar esse projeto, mas foi muito difícil. Demorei 5 anos, procurei várias editoras, ninguém quis fazer, disseram que não tinha público, que era um projeto muito caro. Procurei a lei Rouanet, eles gostaram, e fiquei dois anos captando recurso para poder fazer o livro. Tive a ajuda de 4 patrocinadores. Foram pessoas que acharam a ideia inovadora, gostaram muito, quiseram fazer parte dessa causa. Fui apoiada pela Protege, Banco BDMG, CEMIG e a Consigaz”, afirmou.

“Foram 1000 exemplares, mas eu queria ter feito mais. Uma parte do projeto Rouanet você tem que doar. Doei para escolas que tem alunos com deficiência visual e auditiva, doei para entidades, a Fundação Dorina Nowill distribuiu para vários lugares, vendi alguns, tenho alguns ainda para comercializar, mas são poucos. Vou fazer uma nova edição”, revelou.

“Quando eu apresento o livro para as pessoas, elas perguntam se tem alguém com deficiência na minha família. Eu cresci com um tio com Síndrome de Down, ele era muito querido, brincava comigo quando eu era criança, e isso nunca foi um problema para a família. O livro saiu de dentro de mim, estava na minha alma. Não sei se foi porque fiz muitos trabalhos sociais em minha vida. Minha mãe tirou dez meninas da Febem e criou como filhas. Isso fazia parte da minha vida, eu acredito que tenha algo a ver com essa iniciativa. A Missy tinha que vir para a gente, tinha que conviver conosco, e tudo isso aconteceu. O livro que lancei é um projeto que está no universo, vai ficar para sempre, a Missy foi eternizada”, disse a autora.

“Os deficientes, independentemente do tipo de dificuldade, têm algo diferente para nos mostrar. Não devemos encarar como uma coisa ruim, devemos encarar com naturalidade. Eles nos ensinam tanto, são maravilhosos. O autista por exemplo, é muito inteligente, amoroso, as pessoas com síndrome de down, idem. Eu acho que as pessoas precisam abrir o coração e acolher, dar amor, e tenho certeza de que irão receber muito mais do que vão dar”, encerrou.

O livro pode ser adquirido através do site www.historiademissy.com.br .


Izabella durante o lançamento do livro em São Paulo( Crédito: Victoria Barros)

Por Júlia Sartori

Confira também

João Doria testa positivo para a Covid-19

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou nesta quarta-feira (12) que testou positivo para a …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *