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Com sons maviosos de humana doçura…, por Marcos De Martini

Com sons maviosos de humana doçura…

Marcos De Martini

 

Não sei se já escreveram sobre esse assunto. Não fui buscar em artigos publicados em nossos jornais ou nas obras dos grandes memorialistas rio-pardenses. O grande interesse pelo assunto começou após uma agradável conversa com a professora Nívea Cerboni, companheira de muitos anos de trabalho na EE Dr. João Gabriel Ribeiro, quando ela relatou algumas passagens vividas pelo seu pai, seu JenarinoCerboni, pelos integrantes de conjuntos musicais, companheiros e admiradores da boa música, na São José do Rio Pardo dos anos 1960/70.

Através dessas agradáveis conversas, a princípio desinteressadas, e de algumas fotos por ela apresentadas, despertou-me um grande interesse em reconstruir um pouco desses momentos artísticos, de grande valor para as bandas rio-pardenses da época, e dos bailes, os grandes acontecimentos sociais de muitas gerações em nossa cidade. Certamente, gerações de jovens tinham nos famosos bailes o momento tão esperado para avançarem em olhares, conversas e, quem sabe, em namoros até estão restritos aos corredores do colégio, do escurinho do cinema e das praças nos finais de semana.

Para que pudesse resgatar um pouco desse clima, além da amiga Nívea, guiado pelas suas fotos, entrei em contato com a Lúcia Nogueira Fagiolo, Juçara De Vilhena e a professora Carmem CiniraCônsolo, esposa do Maestro Dr. Flávio Cônsolo. Espero que as informações aqui registradas possam resgatar um pouco dessas histórias, sem nenhum caráter biográfico, mas procurando valorizar toda uma geração de abnegados artistas. Sobre outros tantos que aparecem nas fotos, não foi possível obter informações diretamente.

Pelo entusiasmo da Nívea, a casa de seu pai, JenarinoCerboni, era o ponto de encontro para as reuniões de planejamento e para os ensaios dos músicos em diversos momentos das bandas/conjuntos, formados pelos amigos artistas, desde a época de seu avô Pedro P. Picareta, com a Banda Melodia Orquestra.

Nívea Cerboni, filha de Jenarino, conta: “Como orquestra não me lembro. Ainda não ia aos bailes. Mas nos carnavais… Era um arraso! Que turma que lutava e não demonstrava cansaço. Todos que com a gente conviviam diziam ser uma ótima orquestra e eles tocavam todos os finais de semana pela redondeza. Os ensaios aconteciam em minha casa, na rua Silva Jardim, 507. Todos eram responsáveis e não deixavam de comparecer e, tenho certeza, depois de um dia exaustivo de trabalho. Mas tudo era alegria, tudo cheirava música, só se falava em música e os ensaios começavam e só acabavam às 22 horas. Em casa ainda ficavam muitos deles para um bate-papo muito gostoso de inesquecíveis recordações”.

Lucinha Magalhães Nogueira, casada com Willian Fagiolo, também integrante das bandas, prestou informações muito interessantes, que muito ajudaram a resgatar esse momento de vivência dos integrantes e das apresentações. A Banda tinha o nome de Riverside Ritmos, em homenagem a nossa cidade e ao rio Pardo. Segundo Lucinha “a formação era: Flávio Cônsolo, Johnny  Braghetta, JenarinoCerboni, o cantor Oscar, Dídimo Siqueira e os dois sobrinhos, Carlos Siqueira e Tim Siqueira.”

Nos famosos anos 60, a música popular brasileira vivia um momento especial, com a explosão de novos ritmos, cantores e compositores. Alguns desses jovens artistas dos anos 60 até hoje estão presentes na música brasileira, infelizmente, não tendo o mesmo sucesso de outrora, apesar da qualidade inegável.

Além dos cantores de sucesso, havia também as bandas/orquestras, mais clássicas ou no estilo que se aproximasse dos jovens dos anos 60/70, produzindo músicas de protesto e de contestação social, típicas do período.  Segundo Lucinha “as grandes bandas como Super Som TA, Três do Rio eModern Tropical Quintet começaram a dominar o mercado dos bailes com repertórios elaborados, internacionais, superando orquestras famosas como Sylvio Mazzucca, Orquestra Tabajara, bastante instrumentais (como era o caso do Riverside Ritmos)”.

Com o avanço das novas tendências musicais da época (rock, jovem guarda, bossa nova…), as mudanças também se refletiram nas bandas locais. “Na época, em São José, surgiu Os Tiranos, conjunto que sacudiu a mesmice da cidade, despertando os jovens para os sons das guitarras. O grupo era formado inicialmente pelo Willian Fagiolo, Guilherme Alves Filho (o Guilão), Azael da Costa Figo, Denisson de Oliveira e depois José Ricardo Travassos”, salientou Lucinha.

A mudança dos integrantes era comum. Com a saída de alguns componentes e procurando adequar-se aos novos sons que ganhavam a preferência dos jovens, o Conjunto Riverside Ritmos passou a contar com Willian Fagiolo, como guitarrista solo, e Guilão, como baterista. Segundo Lucinha, “Willian e Guilão, além de sugerirem a mudança do nome para Super Som RR (na época os conjuntos trocavam os nomes pelas siglas, como fez o Três Américas, que virou o Super Som TA), indicaram o nome de José Carlos (Chupim) e Jair (Feijão), respectivamente guitarra base e contrabaixo e acordeom, além de excelentes vocalistas, para fecharem o grupo, com os remanescentes (Flávio, Jenarino, Oscar e Johnny). Com o tempo, passou a fazer parte da banda a cantora Selma Regina (Selminha)”.

Rejuvenescida a banda, o sucesso extrapolou os bailes locais, o que levou o Super Som RR para as cidades até do sul de Minas.  Lucinha (cantora de bossa nova, ao estilo violão e voz), “descoberta” por Flávio Cônsolo, entrou para ocupar o lugar de Selminha. Também chegou para compor os vocais JuçaraCachuté De Vilhena. Lembra Lucinha que “a partir daí, o conjunto se estruturou e teve uma época de grande atividade, apresentando-se em bailes famosos em grandes cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, incluindo o hotel Barreiro (atual Tauá) de Araxá”.

Em conversa com dona Carmem CiniraCônsolo, que gentilmente abriu suas lembranças, detalhando passagens de grande valor para este registro, pude avaliar a qualidade musical do Dr. Flávio Cônsolo, músico de reconhecido valor que também exercia a odontologia e a advocacia. Dona Carmem lembrou-se de passagens marcantes da banda rio-pardense pelo sul de Minas Gerais, “com apresentações especiais para Juscelino Kubitschek e Dona Sara dançarem, principalmente ao som da música ‘Peixe Vivo’, uma das preferidas do político mineiro”.

Em contato com Juçara De Vilhena Strafacci, importante personagem dessa história musical, mesmo sendo por intermédio de uma rede social, pude perceber a relevância desses momentos para essas pessoas. As palavras de Juçara, transcritas integralmente abaixo, deixam claro o valor desse trabalho para toda aquela turma (não apenas uma Banda ou um Conjunto), irmanada em um objetivo profissional que os unia através da música, como também para as pessoas, em especial os jovens, que puderam acompanhar e viver essa história.

Juçara lembrou: “Revolucionários, sim! A Cultura fervilhava e o povo clamava por amor, paz e prosperidade. Nesse clima de convulsão social, estávamos inseridos numa revolução pela arte do cantar, do unir e, mais importante, registrar a beleza de uma época de dificuldades, a qual, em contraposição, nos estimulava a buscar pelo encanto, união e paz para amar e crescer. Nesse enfoque, o Super Som RR destacou-se no cenário nacional (OMB 1969) como um representante fiel dos valores acima mencionados. Participamos, lutamos e, finalmente vencemos, simplesmente pela graciosidade daquilo que fazíamos, seguindo nossas verdades e valores interiores até então incorruptíveis. Saudemos, pois, uma época indelevelmente registrada em nossas vidas…onde até uma inocência florescia… Grata por tudo, Juçara de Vilhena Strafacci.”

Neste aniversário de São José do Rio Pardo, com seus 149 anos, foram muitas histórias construídas e vividas intensamente. Mas, apesar de serem histórias de grande valor, não fazem parte dos manuais enciclopédicos. Não são momentos de heroísmos ou de bravatas políticas. Seguramente são pilares de nossa história cultural, aquelas que realmente ficam em nossas mentes, em nossas almas, marcando uma época. Para as pessoas que viveram esses momentos tão bem guardados em suas reminiscências, essa é a verdadeira história de São José do Rio Pardo, aquela história que se tem o prazer em reviver e guardar profundamente. Para mim, fica o prazer de poder resgatar um pouco dessa história que certamente não merece ficar restrita aos registros fotográficos.

 

 

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