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Uma história de superação contra o câncer

Realizada, “Neneca” não consegue enxergar a vida de uma maneira ruim depois da doença

 Ângela Aparecida Capellari

Foto: Marina Camacho

O tumor foi constatado na mama direita em 2007, ‘alimentado’ pelo anticoncepcional Microdiol, do qual Ângela Aparecida Capellari, a ‘Neneca’, 50 anos, de São José do Rio Pardo, tomava há alguns anos. Após a biópsia, em que foi revelado um câncer maligno, foi encaminhada pelo mastologista Dr. Ray Alves dos Santos para o CAISM (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher), unidade hospitalar pertencente à Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde foi operada em novembro.

Desde que teve a filha ela tomava o anticoncepcional. Ao se separar do marido, parou de tomá-lo. “Depois de muito tempo, comecei a namorar, e faz 13 anos que estamos juntos. Então, voltei a tomar o Microdiol e o meu tumor estava ‘estacionado’, mas depois piorou”, conta.

Ela se lembra que, em 2007, fazia mais ou menos cinco anos que tinha voltado com a pílula e a partir desse momento surgiram as dores e coceiras. “Foi no CAISM que me comunicaram que foi alimentado pelo remédio. Jamais tomarei anticoncepcional novamente. E não conselho mulher nenhuma a tomar. Eu tinha um nódulo que podia ser benigno, não fiz exame, mas podia ser.”

Tratamento

Ângela diz que foram cinco anos de tratamento tomando o remédio Tamoxifeno e fazendo exames a cada seis meses. “Quando o médico descobriu o câncer, fui encaminhada direto ao hospital para fazer a mastectomia total (cirurgia de retirada total ou parcial da mama).”

Após o procedimento, foi comprovado que havia duas glândulas infectadas na axila e foram também retiradas. “Depois disso me senti curada, porque estava tirando uma coisa podre de mim. Não pude fazer a quimioterapia (tratamento médico que introduz na circulação sanguínea compostos químicos para combater o câncer), pois tenho uma anemia hereditária e danificaria o meu sistema imunológico. Não precisei fazer a radioterapia (tratamento com radiações ionizantes como o raio-X) também”, explica.

Motivação

Neneca conta que sempre enxergou a vida de uma maneira diferente e hoje mais ainda. “Dou valor às pequenas coisas, aos gestos. Não fico valorizando nada material, roupa, calçado. Penso mais na saúde. A minha vida é muito boa. Amo minha família, minha filha. Sou realizada.”

Admite que não aceita ver pessoas ligadas a bens materiais ou se lamentando por qualquer coisa. “As pessoas deveriam olhar para trás, ir à Unicamp e ver o que realmente é problema. Quando você vai a lugares assim, encontra pessoas que realmente têm problemas e elas sorriem para você. Então, eu ter perdido o seio não foi nada. Perdi o seio, não a minha vida”, declara.

Segundo ela, é importante procurar tratamento para a doença. “O câncer não mata, o que mata é a cabeça da gente. Essas pessoas precisam ter força, lutar sempre, pois é uma batalha todo dia. Que elas não desistam nunca. Tem que colocar isso na cabeça, ir atrás de todo tratamento que é possível e ter a cabeça boa, porque a nossa mente consegue curar a doença.”

Dificuldades

Não teve dificuldades para aceitar a perda da mama, mas sim em ficar afastada do trabalho e ter que voltar ao emprego dias após a cirurgia. “Não consegui ficar afastada do trabalho, porque nunca fui registrada. Consegui emprego na Pizzaria Dona’Lilla e quando meu patrão viu que eu estava com problemas, me registrou. Depois da operação, fui ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) para ver se eu conseguia afastamento, mas não consegui, pois nunca havia trabalhado registrada e fazia apenas um mês que tinha conseguido. Então, a Dra. Maria Tereza Bortoti me deu afastamento, mas o INSS não aceitou, porque quando fui registrada já estava com a doença. A única dificuldade que encontrei foi que, com 18 dias operada, tive que voltar a trabalhar na pizzaria, com a cirurgia vazando porque necrosou, por eu fumar cigarro. Não estava preparada para voltar a trabalhar”, conta.

Apoio da família

Ela diz que a notícia da doença para a família foi ruim, principalmente para a irmã. “Eu não senti nada, pois quando procurei o médico, já sabia que estava com câncer. Já havia feito exame antes e devia ter seguido o tratamento que ele me passou, mas não segui. Então para mim não foi surpresa nenhuma. Fui confiante. Agora a minha filha, minha mãe, minha irmã, sofreram muito, porque quando se fala em câncer, principalmente para quem precisar ir à Unicamp, é como se estivesse condenada à morte. Mas eu não me via assim.”

Explica que estava consciente de que faria a cirurgia e voltaria para casa em paz, e que a família até hoje se preocupa. “Eles ainda sofrem, mas apoiaram muito. Eu não sofri. O que eu tenho que passar ninguém vai passar por mim. Então, a pessoa tem que enfrentar de cabeça erguida. É um obstáculo que surge na sua vida e tem que ultrapassá-lo, pois se deixar se abater e se condenar por isso, será uma perdedora pelo resto da sua vida. E eu não sou assim, prefiro lutar; cada pedra que surge no meu caminho tentarei tirá-la”, diz.

Restrições 

A pessoa tem algumas restrições após a cirurgia e, de acordo com Neneca, é para o resto da vida. “Tenho algumas restrições no braço direito: faço todo o serviço normal, mas às vezes preciso parar para pensar, pois não posso abusar tanto, e é durante a vida toda.” Ainda afirma que, por ser uma área mais sensível, é necessário atenção e cuidado ao realizar tarefas cotidianas, pois o local pode inchar e não volta ao normal. “Depois de um tempo fui capinar meu quintal. Capinei, rastelei o mato. Dois dias depois, apresentou inchaço do lado da axila (entre o seio e a axila) e não tem como sumir mais. Fico feliz que tenha sido nesse local e não no braço. Tem hora que você para pra pensar: ‘Estou fazendo coisa que não devo.’ Mas, para mim, é uma vida normal.”

Fonte: Gazeta do Rio Pardo – Por Marina Camacho

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