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Psicóloga fala sobre jogo da Baleia Azul

Para ela, os jovens se prendem ao jogo porque alguns estão vivendo “um grande vazio”

Cibele: “Virou um grande refrão a história de que a gente tem que fugir da dor emocional”

Um jogo viral tem causado preocupação no mundo todo. Ele é disputado pelas redes sociais e propõe desafios macabros ao jogador, como fazer fotos assistindo a filmes de terror, automutilar-se, ficar doente e, na etapa final, cometer suicídio.

Trata-se do jogo da Baleia Azul, que teria começado na Rússia e está se espalhando inclusive no Brasil, com o registro de algumas mortes pelo país.

Em São José do Rio Pardo, educadores e pais levam essa preocupação às escolas e algumas delas já debatem o assunto abertamente, no sentido de alertar sobre o perigo que o jogo representa.

A psicóloga do Centro de Referência Mental local, Cibele Maria Arroio Barboza, explica que o jogo tenta provocar emoções nas crianças. “São 50 desafios colocados para que jovens possam ocupar o seu tempo, todos muito arriscados e perigosos desde o primeiro.”

Ela conta que ainda não atendeu alguém que tenha entrado no jogo. “Tenho muitos adolescentes perguntando, querendo orientação. Digo que a vida é um jogo muito interessante, e que talvez a gente tenha que buscar o prazer de viver. Já que a ideia final do jogo é a morte, acho que a gente não tentou de tudo ainda. São José é uma cidade rica de oportunidades, de atividades destinadas a crianças e jovens, e falta um pouco orientá-los a essa busca. Em vez de procurar a morte, procurar a vida.”

Mais meninas

Sobre a informação de que o número de meninas que entram no jogo é maior, a psicóloga diz que é uma característica da sociedade machista. “A nossa sociedade ainda é muito machista e a tendência é sempre de reprimir mais a menina. Acho que acaba sendo assim: a menina pode menos, a menina tem mais atenção e mais pressão da família para não ter experiências e aí ela acaba aderindo mais a esse tipo de atividade.”

Dor emocional

Cibele diz que “virou um grande refrão a história de que a gente tem que fugir da dor emocional”, o que em tese explicaria os comportamentos de automutilação, como desenhar uma baleia no braço com uma lâmina. “Comportamentos de automutilação são muito associados a isso: ‘eu prefiro a dor física do que a dor emocional’. E o nosso trabalho é dizer ‘filho, a vida é difícil, a gente vai passar por processos dolorosos. Vamos tentar ver que dor é essa, que emoção é essa que está difícil de lidar e vamos procurar um caminho para poder resolver esse conflito. Mas não é simplesmente colocando uma dor em cima da outra que a gente vai sair disso’.”

Algumas vezes, segundo ela, é preciso buscar a ajuda de um profissional.

Vazio

Para Cibele, os jovens se prendem ao jogo porque alguns estão vivendo “um grande vazio”. “Tem uma questão de proteção da família que impede uma vida social mais ativa: a praça está perigosa, os vizinhos não são boas companhias, na escola também não tem gente legal, e a família está prendendo o jovem. Então muitas vezes as companheiras dele são a internet e as redes sociais. Um corpo parado, represado, vai tentar buscar prazer de alguma outra forma.”

Ela alerta que está na hora de pensar se o que a família oferece ao jovem faz ele ter “brilho nos olhos”. “Se estou só contendo um momento da vida que é de muita energia, isso vai estourar em algum lugar. A repressão é a última das atitudes, quanto mais a gente proíbe, mais interessante fica.”

Papel da família

A presença da família é fundamental. “A família sempre vai ter papel importante na formação e no desenvolvimento dos filhos. É lógico que a gente vai fazendo adequações, mas há coisas gostosas de se fazer com o adolescente e vai ser sempre importante preservar essa relação de pais e filhos. Ela é conflituosa, é difícil, mas é a nossa tarefa.”

Cibele diz que as notícias ruins sempre estarão presentes na vida de qualquer pessoa, e também na vida das crianças e adolescentes. “A gente não vai deixar nunca de ver coisas chatas na vida, como a guerra, a corrupção, a fome, as discriminações. Mas vale a pena conversar sobre isso, pois a notícia informa e a conversa educa. Precisamos nos aproximar dos nossos filhos porque essa é a única saída.”

Aos adolescentes

Aos adolescentes e jovens, a psicóloga deixa um recado: “Viva a vida, procure aquilo que lhe faz bem. Existem várias atividades na cidade, inclusive você pode fazer trabalho voluntário em asilos, orfanato, ações pelo meio ambiente. Procure uma atividade física, se envolva com questões da sua cidade. Está faltando isso, uma saída positiva e saudável que pode acalmar essa inquietação.”

Fonte: Gazeta do Rio Pardo – Redação: Giselle Torres Biaco/ Entrevista: Silvio José

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