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Aos 17, a vida interrompida pelas drogas

Sobrinha fala sobre a história da tia que passou 14 anos em coma por causa das drogas

Jussara antes da intoxicação por drogas: alegre, vaidosa e cheia de vida; depois das drogas: vida vegetativa por 14 anos (Fotos: Arquivo pessoal)

“Só quem passa por essa situação é que entende o que as drogas podem provocar na vida de uma pessoa e de toda uma família. Eu sei o que é esse sofrimento.” O alerta é de Maria Vitória Moraes, uma jovem rio-pardense que, aos 17 anos recém-completados, fala com a propriedade de quem já viveu muito, de quem sabe que o sofrimento deixa rastros difíceis de serem apagados. Mas ela sabe, também, que os momentos difíceis trazem o amadurecimento e o crescimento.

Por iniciativa própria, Vitória procurou a redação da Gazeta para contar a história da tia dela, uma jovem que aos 17 anos teve a vida interrompida em razão das drogas. “Que essa história de luta e sofrimento sirva para alertar as pessoas”, diz.

À época dos acontecimentos, Vitória tinha apenas três anos de idade, mas ainda guarda lembranças de como tudo aconteceu, no dia 11 de junho de 2003. “Eu morava com minha avó e minha tia Jussara. Um dia, minha tia passou mal na nossa frente, espumava pela boca. Parecia que estava morta.”

Jussara Venâncio de Lima Cândido foi socorrida e levada ao Hospital São Vicente. Após uma hipóxia cerebral (diminuição do aporte de oxigênio ao cérebro), ela passou por três processos de ressuscitação e conseguiu ser estabilizada. Mas o diagnóstico foi implacável: “coma vigil decorrente de intoxicação por drogas”. Diferente do coma profundo, em que a pessoa permanece com os olhos sempre fechados, no coma vigil a pessoa consegue manter os olhos abertos, mas não fala, não se movimenta (tetraplegia ocasionada pela lesão cerebral), não responde a estímulos verbais e não interage.

A jovem ficou no hospital por três meses e, em razão de dificuldades financeiras da família, foi transferida para o Asilo Lar de Jesus, onde permaneceu sob cuidados por seis anos.

De acordo com a família, a necessidade de cuidados médicos e de equipamentos mais específicos fez com que, no dia 15 de junho de 2009, Jussara fosse transferida para o Hospital Regional de Divinolândia (Solar das Magnólias), onde ficou por oito anos. E assim, após 14 longos anos de vida vegetativa, Jussara faleceu no dia 28 de julho de 2017, aos 31 anos de idade.

Uma vida pela frente

A sobrinha Vitória, que hoje tem a mesma idade da tia quando tudo aconteceu, conta que a família, embora sem condições financeiras, sempre a cercou de todos os cuidados e de muito amor. “Ela foi e é muito amada por todos nós. Tenho boas lembranças, como quando eu brincava com os batons dela. Ela era muito vaidosa, uma moça muito bonita e alegre, querida por todos e que tinha uma vida inteira pela frente. Mas, infelizmente, se envolveu com as pessoas erradas e conheceu as drogas.”

Em uma das últimas visitas feitas à tia, poucos dias antes de ela morrer, Vitória lembra que falou no ouvido que a amava muito e que ela poderia descansar. Em outra ocasião, a sobrinha diz que a família viu lágrimas saindo dos olhos da tia. “Ela chorou, eu vi. Então acho que sentia alguma coisa. Acho que viveu todo esse tempo só por causa da família.”

Lições

Para Vitória, a tia deixou várias lições. A principal delas, segundo a jovem, é a mensagem sobre as drogas. “Tenho verdadeiro pavor de drogas, de álcool. Falo isso aos meus amigos, sobre o perigo que elas representam. As pessoas acham que nunca vai acontecer com elas, na família delas, mas acontece. Está na vida de qualquer um, bate à porta de qualquer casa. E é preciso ficar atento, dizer não sempre. Não existe essa de achar que vai experimentar, usar de vez em quando e que vai conseguir parar quando quiser. Minha tia é um exemplo… Ficou uma vida na cama, sem noção do mundo. Não viveu, vegetou. E toda a família sofreu junto durante 14 anos. Quem deseja isso?”

Medicina

Apesar da firmeza com que fala sobre o assunto, Vitória confessa que é acompanhada por psicoterapeuta e faz uso de medicamento antidepressivo. Ainda assim, com o amadurecimento que o sofrimento trouxe, garante que vai seguir uma trajetória bem diferente. “Amo ajudar as pessoas e quero seguir esse caminho em memória da minha tia e de tudo que aconteceu com a gente. Quero ser médica. Vou ser a luz que vai fazer brilhar a minha família.”

Fonte: Gazeta do Rio Pardo – Por Giselle Torres Biaco

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